A Verdade Oculta da Heroína Acidental

O médico entrou no quarto com uma prancheta na mão, a sua expressão séria.

"Senhora Eva Santos, tenho os resultados dos seus exames."

Eu sentei-me, o meu corpo a protestar com a dor. Sofia ajudou-me a ajustar as almofadas.

"Tenho boas e más notícias", continuou o médico. "A boa notícia é que, para além de contusões e uma concussão leve, não tem ferimentos graves. Vai recuperar totalmente com algum descanso."

Eu assenti, à espera da outra parte.

"A má notícia", disse ele, olhando para os papéis, "é que descobrimos algo durante os exames. Senhora Santos, está grávida."

O mundo parou.

Grávida.

Eu e o Leo tínhamos tentado ter um bebé durante mais de um ano, sem sucesso. Tínhamos desistido há alguns meses, aceitando que talvez não fosse para ser.

E agora, isto.

As lágrimas que eu tinha segurado com tanta força começaram a cair. Eram lágrimas de choque, de alegria, de medo e de uma tristeza avassaladora.

Sofia agarrou a minha mão com força. "Eva? Isto é... isto é verdade?"

Eu só conseguia assentir, a minha garganta apertada demais para falar.

Um bebé. Um bebé nosso.

Um bebé que o pai dele não sabia que existia, porque estava demasiado ocupado a preocupar-se com outra mulher.

O médico, percebendo a complexidade da situação, pigarreou. "Normalmente, isto seria uma notícia maravilhosa. No entanto, dado o acidente e a concussão, precisamos de ser muito cuidadosos. Terá de evitar o stress a todo o custo. É crucial para a saúde da gravidez nas primeiras semanas."

Evitar o stress.

Ri-me, um som oco e sem alegria. Era como pedir a alguém no meio de um furacão para não se molhar.

"Obrigada, doutor", consegui dizer.

Quando ele saiu, o silêncio no quarto era pesado.

"O que vais fazer?", perguntou Sofia suavemente.

"Eu não sei", admiti, colocando a mão instintivamente sobre a minha barriga lisa. "Eu queria isto mais do que qualquer coisa. Mas agora..."

Agora, tudo estava diferente. O divórcio que eu tinha declarado com raiva momentos antes já não parecia tão simples.

Um filho merece uma família. Um pai.

Mas que tipo de pai seria o Leo? Um que escolheria sempre outra pessoa em vez da sua própria família?

O meu telemóvel tocou. Era um número desconhecido. Hesitante, atendi.

"Eva?"

Era a voz do Leo. Ele devia estar a usar o telemóvel de outra pessoa.

"O que queres?", perguntei, a minha voz desprovida de emoção.

"Olha, eu sei que estás zangada", começou ele, a sua voz mais baixa agora. "A minha mãe exagerou. Mas tenta entender o meu lado. A Clara..."

"Não digas o nome dela para mim", interrompi-o.

Ele suspirou. "Ok. Mas ela vai ficar bem. A cirurgia correu bem. Ela vai precisar de fisioterapia, mas vai andar de novo."

"Que bom para ela", respondi sarcasticamente.

"Eva, por favor. Não vamos lutar. Podemos falar sobre... sobre o que disseste mais tarde? Quando as coisas acalmarem?"

Eu pensei no pequeno segredo que agora guardava. Pensei no conselho do médico. Evitar o stress.

Talvez ele tivesse razão. Talvez eu precisasse de tempo para pensar, para decidir o que era melhor. Não só para mim, mas para o bebé.

"Está bem, Leo", eu disse, a minha voz cansada. "Falamos mais tarde."

"Obrigado, Eva. Sabia que ias entender. Vou tentar passar aí assim que puder."

Ele desligou, e eu fiquei a olhar para o telemóvel.

Eu não o tinha perdoado. Longe disso. Mas tinha comprado tempo.

E tempo era algo de que eu precisava desesperadamente.

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