A Traição No Asfalto

Dois dias depois, recebi alta. O meu braço direito estava inútil, pendurado numa tipóia. A minha mãe levou-me para casa.

A casa estava silenciosa. A casa que eu e o Pedro tínhamos escolhido juntos. Onde as nossas fotografias sorriam de cada prateleira.

Ele não estava lá.

"Ele teve de levar a Sofia a uma consulta de acompanhamento em Lisboa," disse a minha mãe, evitando o meu olhar enquanto desfazia a minha mala. "Um especialista de renome. O Pedro está a pagar tudo."

"Claro que está," murmurei.

Sentei-me no sofá, a olhar para o meu estúdio. A mesa de desenho digital, o computador caro. Tudo inútil agora.

O médico tinha sido claro. "Fratura complexa. A recuperação será longa. Fisioterapia intensa. Mas a mobilidade total... não podemos garantir."

A minha carreira, a minha paixão, a minha independência financeira. Tudo em suspenso. Talvez para sempre.

Peguei no telemóvel. Abri a conversa com o Pedro.

As suas mensagens eram curtas, práticas.

"A Sofia está a fazer mais exames. Parece que há uma pequena inflamação."

"O médico está otimista, mas quer mantê-la em observação."

"Comprei-lhe os pastéis de nata de que ela gosta. Finalmente sorriu um bocadinho."

Nem uma única pergunta sobre a minha dor. Sobre o meu braço. Sobre o meu medo.

Senti uma náusea. Não era do acidente. Era de outra coisa. Uma coisa feia que crescia dentro de mim.

A campainha tocou. A minha mãe foi abrir.

Era a mãe do Pedro, a Helena. Uma mulher que eu sempre adorei, que me tratava como uma filha.

Ela entrou, o rosto uma máscara de preocupação. Correu para mim e abraçou-me com cuidado.

"Minha querida Ana! Como estás? Fiquei tão preocupada!"

As lágrimas vieram aos meus olhos. Finalmente, alguém que parecia realmente ver-me.

"Estou... a recuperar," consegui dizer.

Ela sentou-se ao meu lado, a segurar a minha mão boa. "O Pedro contou-me. Sobre o braço. Eu sinto muito, querida. Mesmo muito."

A minha mãe interrompeu, a voz falsamente animada. "Mas a Sofia, felizmente, parece estar a melhorar! Foi um susto terrível para a menina."

Helena franziu a testa ligeiramente. "Claro. Mas a Ana também passou por um trauma terrível. Ela era a condutora. Imagino a culpa que deves sentir, mesmo não sendo tua."

A culpa. Sim. Eu sentia-a. Sentia-a a roer-me por dentro, misturada com a raiva.

"O Pedro está a ser um santo," continuou a minha mãe. "A cuidar da Sofia como se fosse a sua própria irmã."

Helena olhou para a minha mãe, e depois para mim. Havia algo no seu olhar. Uma compreensão.

"Ele é o teu noivo, Ana. Devia estar aqui contigo," disse Helena, a voz baixa mas firme. "A Sofia tem mãe. Tu precisas do teu parceiro."

O silêncio na sala ficou pesado. A minha mãe abriu a boca para protestar, mas a Helena não lhe deu oportunidade.

"Liguei-lhe ontem," disse Helena, virando-se para mim. "Disse-lhe que o seu lugar era aqui. Ele disse que a Sofia estava demasiado frágil."

Frágil. E eu? O que era eu?

"Ele vai compensar-te, querida," disse a minha mãe rapidamente. "Tu sabes como ele é bom."

Sim. Eu sabia como ele era.

E era exatamente por isso que, quando a Helena saiu, eu peguei no telemóvel e comecei a procurar apartamentos para alugar.

Com uma só mão. Lentamente. Mas com uma determinação que não sentia há muito tempo.

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