A TESTEMUNHA

Algo explode perto do trinco da porta e sei que é um tiro. A arma deve ter silenciador. O desespero grita dentro do meu peito e sinto o ar ir sumindo aos poucos. Mais um tiro e um pequeno buraco surge na porta, perto do trinco. O homem tenta enfiar a mão para destravar a porta e em um ato idiota de coragem, avanço em sua mão e mordo. Cravo meus dentes com tanta força que sinto sabor de sangue.

- Vadia!

Puxa a mão de volta e caio no chão. O homem agora atira contra a porta várias vezes e me escondo na parede, me encolhendo toda.

- Quando eu te pagar vou te arrebentar toda e te meter bala.

Grita furioso e começa a chutar a porta que está quase caindo.

- Os seguranças estão subindo.

Alguém grita pro homem que solta uma sequencia raivosa de palavrões.

- Temos que matar essa vaca.

- Ela não viu nossa cara, então estamos bem. Vamos logo!

- Reza pra eu não cruzar com você, vadia!

Fala pra mim e escuto o som da correria no quarto. Agarro minhas pernas, não consigo mais chorar baixo e meu corpo todo treme. Tudo fica silencioso lá fora e tenho medo de sair. Medo de estarem me esperando e de levar um tiro na testa como o Jonny. Escuto batidas na porta e me encolho mais.

- Senhorita, consegue abrir a porta?

- Não!

Sussurro de volta, mas não sei se a pessoa me escutou.

- Senhorita, meu nome é Jerry e sou segurança do hotel. Consegue abrir a porta? Está seguro, já chamamos a polícia.

- Não consigo... me mexer...

Respondo mais alto e gaguejando. Me assusto quando a porta é derrubada e um homem bem moreno entra no banheiro. Seus olhos percorrem o local me procurando e quando me encontra, respira aliviado. É um dos seguranças que olhei na recepção.

- Está ferida?

Nego com a cabeça, mas permaneço travada no lugar.

- Consegue se levantar?

Em lágrimas nego novamente com a cabeça. Jerry sai do banheiro e volta com um cobertor. De forma protetora coloca em cima de mim, sem me tocar se ajoelha a minha frente.

- Sabe o que aconteceu no quarto?

Confirmo com a cabeça que sim.

- Esteve no banheiro enquanto o Sr. Silver era assassinado?

- Sim...

- Eles tentaram entrar pra te pegar?

- Sim...

- Você que ligou pra recepção pedindo ajuda?

Confirmo com a cabeça e o choro aumenta.

- Ele quase me matou.

Sussurro e sua mão repousa sobre a minha cabeça.

- Vai ficar tudo bem. A polícia já deve estar chegando e vai ficar segura.

**********

Dez minutos depois o quarto está tomado de policiais, estou sentada na cama encarando o corpo do Jonny no chão. Queria conseguir não olhar, mas é impossível. Alguns policiais parecem procurar alguma coisa no quarto, enquanto outros conversam com o segurança Jerry e me olham como se eu fosse a assassina.

- Srta. Victória Jones, certo?

Um dos homens que conversava com o segurança pergunta.

- Sim!

- A senhorita é...

Posso completar sua frase, mas estou querendo ver como ele me classifica. Vai mostrar muito o tipo de policial que é.

- Acompanhante do Sr. Silver.

Jerry completa por mim.

- Estava com ele nesse quarto no momento do crime.

- Gostaria que apenas a Srta. Jones respondesse minha pergunta.

O policial é grosseiro com Jerry, mas ele não se intimida. Senta ao meu lado como se fosse meu cão de guarda.

- Sou acompanhante de luxo e hoje Jonny Silver era meu cliente.

Digo firme e tomada por uma coragem assustadora. Talvez seja coragem de enfrentar pessoas como esse policial de olhar julgador.

- Poderia me contar o que fizeram até o momento em que o Sr. Silver foi assassinado?

- Qual o nome do senhor?

- Phil!

- Jonny me contratou para acompanhá-lo em um evento aqui perto. Passamos cerca de meia hora no local e depois decidiu vir para o hotel.

- Apenas meia hora no evento? Acho que tinha pressa em ficar a sós com você.

- Jonny estava incomodado com um assunto chato da festa e decidiu vir embora. Em nada meu corpo teve culpa em sua rapidez no evento.

- Incomodado?

- Sim!

- Qual era o assunto?

- Sua prisão e sua soltura rápida.

- Só isso?

Questiona e algo em mim diz pra me calar sobre o resto. Não sei em quem confiar. Pode ser que a pessoa que matou o Jonny tenha informantes.

- Acho que sim! Não somos pagas pra ouvir essas conversas, eles nos afastam desses assuntos.

O policial me analisa toda.

- Você tem algum namorado ciumento, algum cafetão, algum cobrador de dividas?

- Não!

- Ninguém que pudesse invadir um quarto onde esteja com um cliente e usá-lo pra pagar suas dividas?

- Por que eu devo ser a responsável pela morte do Jonny e não ele mesmo? É mais fácil ele ter inimigo do que eu!

O policial se cala e anda pelo quarto.

- Não gostei dele.

Jerry diz perto do meu ouvido.

- Também não!

- Tenho um amigo que trabalha na policia, vou pedir ajuda dele.

Sai de perto de mim e sai do quarto com o telefone no ouvido.

***********

DUAS HORAS DEPOIS

Finalmente vou sair desse quarto e parar de olhar o corpo do Jonny no chão. Jerry conseguiu ajuda de seu amigo e vão me levar a delegacia de homicídios. Saio do quarto enrolada em uma coberta e entramos no elevador. Jerry está ao meu lado, seu amigo policial a minha frente e descemos para o térreo. As portas do elevador se abrem e vejo uma multidão na porta de vidro do hotel.

- A imprensa já soube da morte do Jonny.

Jerry resmunga e aperta o botão do subsolo.

- Vamos sair pelo estacionamento, evitamos que tirem foto da Victória. Temos que preservá-la o quanto der.

Saímos para o estacionamento e Jerry me para no meio de um dos corredores.

- Cobre o rosto.

Pede e me ajuda a puxar o cobertor.

- Jerry, pode levá-la em seu carro? Vou sair com a viatura e chamar atenção desses abutres. Vem em seguida com seu carro e me encontra na delegacia.

- Perfeito!

Ele segue para a viatura e caminho com o Jerry até o carro dele.

- Obrigada por me ajudar e me proteger.

Digo e ele sorri pra mim.

- Minha irmã é acompanhante. Só estou te protegendo como eu gostaria que a protegessem.

Abre a porta do seu carro e me pede pra entrar no banco de trás e me abaixar. Faço o que me pede e não vejo mais nada, apenas sinto o carro entrar em movimento. Escuto o barulho da rua e das pessoas, mas não me mexo. Sinto o carro se mover mais rápido e meu celular na bolsa começa a tocar. Pego ele escondida e vejo um número restrito.

- Alô!

- Oi, vadia!

A voz do homem que matou o Jonny faz meu corpo gelar. Me descubro e olho para o Jerry.

- O que foi?

Pergunta e cubro o telefone com a mão.

- É o homem que matou o Jonny.

- Te mandei não cruzar de novo meu caminho.

Diz e em segundos a viatura do amigo do Jerry a nossa frente passa um cruzamento e é atingida por outro carro.

- Meu Deus!

Jerry grita e escuto a risada do homem no telefone.

- Adeus, vadia!

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