A Substituta Esquecida

Sofia casou com Ricardo há um ano, ele é um arquiteto famoso em Lisboa, oito anos mais velho.

Todos diziam que Ricardo era frio, mas para Sofia, ele era diferente, mostrava uma ternura que a surpreendia.

Ele ofereceu-lhe uma serigrafia rara de um artista que ela só mencionou uma vez.

Quando ela ficou doente, ele fez canja de galinha caseira, cuidou dela.

Chamava-a "meu anjo".

Sofia sentia-se segura, feliz.

Nas redes sociais, o nome de Ricardo era "Para Elisa".

Sofia sorria sempre que via, pensava que era por causa da peça de Beethoven.

Ela tinha tocado essa música ao piano num dos primeiros encontros deles, um momento que ela guardava com carinho.

Isso reforçava a ideia de que o amor deles era especial, profundo.

Um dia, Sofia arrumava o estúdio de Ricardo.

Encontrou um caderno de esboços antigo, um que nunca tinha visto.

Abriu-o, curiosa.

Estava cheio de desenhos de uma mulher.

Uma mulher incrivelmente parecida com ela.

A mesma mulher, desenhada vezes sem conta, muitas vezes ao pé de um piano, ou em cenários que lembravam projetos de Ricardo.

Sofia sentiu um arrepio.

Virou uma página, na contracapa de um desenho particularmente detalhado, uma caligrafia elegante dizia: "Para Elisa (a música), para a minha Lúcia."

O mundo de Sofia desabou.

Lúcia. Não Elisa, a peça. Lúcia, a mulher dos desenhos.

Ela era apenas uma substituta. A ironia era cruel.

Sofia estava grávida de cinco meses.

A descoberta esmagou-a. A dor era física, profunda.

Não queria um filho nascido de uma mentira, um filho para um homem que amava outra.

Secretamente, marcou uma consulta.

Fez um aborto.

A dor da perda do bebé juntou-se à dor da traição.

Não chorou na clínica, recusou-se a ver qualquer coisa.

Apenas sentiu um vazio imenso.

Chegou a casa e preparou os papéis do divórcio. A sua mão tremia, mas a decisão era firme.

Precisava de ouvir da boca dele, ou pelo menos, de algo que confirmasse o que já sabia.

Ligou para Ricardo.

Demorou a atender.

Finalmente, uma voz masculina, arrastada pela bebida, atendeu. Não era Ricardo.

"Estou? Quem fala?"

"É a Sofia. O Ricardo está?"

Ouviu risos ao fundo, música alta. Uma festa.

"Ah, a esposinha! O Ricardo está ocupado, querida." Outra voz, igualmente bêbada, gritou: "A Lúcia voltou, sabes? O homem nem se lembra que tem uma esposa grávida em casa!"

Mais risos. "Ele largou a substituta num instante!"

"Substituta". A palavra ecoou na cabeça de Sofia.

"Ele agora só tem olhos para a Lúcia, até lhe comprou uns sapatos rasos porque os saltos altos magoavam-na. Um cavalheiro!"

Sofia sentiu o estômago revirar.

Ricardo finalmente pegou no telefone. A voz dele era melosa, fingida.

"Meu anjo? Desculpa a demora, estava num jantar de negócios importante."

Mentira.

Ao fundo, distintamente, ouviu a voz de Lúcia, clara e cristalina, a rir de alguma coisa.

Sofia desligou. A confirmação era mais dolorosa do que imaginara.

Ricardo chegou a casa tarde, trazia uma caixa da pastelaria favorita de Sofia.

"Meu anjo, trouxe os teus pastéis de nata preferidos."

Ele tentou sorrir, mas Sofia viu a tensão nos ombros dele.

Ela estava sentada no sofá, fria como gelo.

Ele aproximou-se, tentou tocar-lhe na barriga.

"Como está o nosso bebé?"

Sofia recuou, entregou-lhe os papéis do divórcio.

"O que é isto?" ele perguntou, confuso.

Nesse momento, o telemóvel dele tocou. Era Lúcia, o nome brilhava no ecrã.

Ricardo atendeu de imediato, a voz urgente. "Lúcia? O que se passa?"

Ele ouvia Lúcia, gesticulava, parecia preocupado com o que ela dizia.

Pegou numa caneta, olhou para os papéis que Sofia lhe dera, e sem ler, assinou.

Provavelmente pensou que era algo para um projeto, uma compra avultada que precisava da sua assinatura urgente.

"Tenho de ir, meu anjo. A Lúcia precisa de mim."

E saiu apressado, deixando Sofia sozinha com os papéis assinados e o cheiro enjoativo dos pastéis de nata.

Sofia olhou para os papéis. Divórcio. Assinado.

A frieza dela era uma muralha.

Ele nem sequer perguntou porque é que ela estava tão distante.

O presente, os pastéis de nata, ficaram na mesa.

Ela pegou na caixa e meteu-a no frigorífico.

Talvez mais tarde sentisse fome. Ou talvez não.

A determinação dela era agora a sua única companheira.

Ricardo não voltou nessa noite.

Sofia não esperava que voltasse.

A ironia da situação era palpável. Ele, tão preocupado com a Lúcia, assinara o fim do seu próprio casamento sem pestanejar.

Ela sentiu um misto de desgosto e uma estranha calma.

A luta interna acabara. Agora era só seguir em frente.

Ele ligou na manhã seguinte, a voz ainda melosa, a perguntar se ela estava bem, se o bebé estava bem.

Completamente alheio.

"Está tudo bem, Ricardo," ela respondeu, a voz neutra.

"Ainda bem, meu anjo. Tenho muito trabalho hoje, mas penso em ti."

Sofia desligou. A palavra "anjo" agora soava como um insulto.

Quando ele finalmente chegou a casa nessa noite, trazia outro presente, um livro de arte raro que ela mencionara há meses.

"Para compensar a minha ausência," ele disse, sorrindo.

Sofia pegou no livro, agradeceu com um aceno de cabeça.

Ele tentou abraçá-la. Ela desviou-se.

"O que se passa, Sofia?"

Ela simplesmente olhou para ele, depois para os papéis do divórcio ainda na mesa de centro.

Ele não os viu. Ou fingiu não ver.

O telemóvel dele tocou novamente. Lúcia.

Ele atendeu, a voz a mudar instantaneamente para um tom preocupado e íntimo.

Enquanto ele falava com Lúcia, gesticulando, Sofia pegou nos papéis.

Ele desligou, virou-se para ela. "Desculpa, meu anjo, a Lúcia está a passar por uma fase complicada."

"Ricardo," ela começou.

Mas ele interrompeu-a, pegando na caneta que estava ao lado dos papéis. "Preciso de assinar alguma coisa para o projeto novo? Manda."

Sofia estendeu-lhe os papéis do divórcio.

Ele, com a cabeça ainda na conversa com Lúcia, na urgência dela, assinou onde ela apontou, sem ler uma única palavra.

"Pronto. Agora tenho mesmo de ir. A Lúcia precisa de mim com urgência."

Beijou-lhe a testa distraidamente e saiu.

Ele tinha acabado de assinar o divórcio pela segunda vez, sem se aperceber.

"Vemo-nos mais tarde, meu anjo," ele disse da porta. "Fazemos planos para o fim de semana, talvez uma escapadela romântica."

Sofia ficou a olhar para a porta fechada.

"Acabou, Ricardo," ela sussurrou para o vazio.

A sensação de finalidade era arrepiante, mas também libertadora.

O seu triunfo silencioso era amargo.

Ele descobriria. Eventualmente.

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