A Sobrevivente do Plano Cruel

"Esse anel é bonito," eu disse, a minha voz sem emoção.

A Ana retirou a mão rapidamente, escondendo-a atrás das costas.

"Oh, isto? Comprei-o numa feira. Gostas?"

O seu rosto ficou pálido.

Mentirosa.

Léo voltou com a água. Ele sorria, o marido atencioso.

"Aqui estás, Sofia. Bebe devagar."

Ele ajudou-me a sentar e a beber. O seu toque fez a minha pele arrepiar-se.

Eu olhava para ele e via um estranho.

"Léo, ligaste aos meus pais?" perguntei.

"Ainda não," ele disse. "Não queria preocupá-los. Pensei em esperar até teres alta."

"Não," eu disse firmemente. "Liga-lhes agora. Quero que eles venham."

Léo e Ana trocaram um olhar rápido. Um olhar que eu nunca tinha notado antes.

"Claro," disse Léo, pegando no seu telemóvel. "Vou ligar ao teu pai."

Ele saiu para o corredor para fazer a chamada.

Fiquei sozinha com a Ana.

O silêncio era pesado.

"Sofia, eu sinto muito," ela sussurrou. "Por tudo."

"Pelo quê, exatamente?" perguntei, olhando diretamente para os seus olhos.

Ela desviou o olhar. "Pelo Léo. Eu sei que te magoei. Mas eu amo-o. E ele ama-me a mim."

A confissão saiu, simples e cruel.

"E o acidente?" perguntei. "Também faz parte do vosso amor?"

O rosto da Ana perdeu toda a cor. "O quê? Não! Como podes pensar isso? Foi um acidente horrível!"

"Foi?"

A minha calma parecia perturbá-la mais do que qualquer grito.

Léo voltou a entrar. "Falei com o teu pai. Eles estão a caminho. Estão muito preocupados."

Ele olhou da Ana para mim, sentindo a tensão no ar.

"Está tudo bem aqui?"

"Está tudo ótimo," eu disse com um sorriso frio. "A Ana estava apenas a dizer-me o quanto te ama."

O rosto de Léo endureceu. "Sofia, não é altura para isto."

"Não? E quando é a altura certa, Léo? Depois do meu funeral?"

O choque no seu rosto foi quase cómico.

"Do que estás a falar?"

"Eu sei dos travões, Léo."

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Ana engasgou-se. Léo ficou imóvel, como uma estátua.

A porta do quarto abriu-se.

Eram os meus pais. A minha mãe correu para mim, a chorar. O meu pai seguia-a, o seu rosto uma máscara de preocupação.

"Minha filha! O que aconteceu?"

Antes que eu pudesse responder, a Ana atirou-se para os braços do meu pai.

"Pai! Foi horrível! A Sofia salvou-me! Ela é uma heroína!"

Ela chorava histericamente.

O meu pai, que sempre a protegeu, abraçou-a com força.

"Calma, minha querida. O importante é que estão as duas seguras."

Ele olhou para o Léo. "Léo, obrigado por cuidares delas."

Léo forçou um aceno de cabeça, ainda pálido.

A minha mãe segurava a minha mão, alheia a tudo.

"Precisamos de agradecer a Deus. Podia ter sido muito pior."

Oh, mãe. Não fazes ideia.

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