A Rejeitada Que Se Reergueu

Helena desligou a chamada, o rosto uma máscara de confusão e desapontamento.

"Sofia, o que se passa? Divórcio? Vocês esperaram tanto por este bebé."

"Foi o Miguel que se passou, Helena. Ele deixou-me para morrer para salvar a ex-namorada dele."

A minha voz era fria, desprovida de qualquer emoção que eu sentia.

"Salvar a... Clara?" O nome pareceu deixar um gosto amargo na boca dela. Helena nunca gostou de Clara.

Mostrei-lhe a publicação no telemóvel. A foto de Miguel, o herói, com a mulher que ele tinha escolhido em vez de mim.

Helena olhou para a imagem, e a sua expressão mudou de confusão para uma raiva fria.

"Aquele idiota," ela murmurou. "Depois de tudo o que ele te prometeu."

Ela sentou-se na beira da cama, a sua mão encontrou a minha. Estava fria.

"Eu sinto muito, Sofia. Eu não criei o meu filho para ser este tipo de homem."

"Eu sei," disse eu. E eu sabia. Helena era uma boa pessoa, presa no meio.

Ficámos em silêncio por um momento. O único som era o bipe suave de um monitor nalgum lugar no corredor.

"O que vais fazer agora?" ela perguntou finalmente.

"Vou para casa da minha mãe. Preciso de espaço."

"Claro. Eu ajudo-te."

Quando saí do hospital, não havia sinal de Miguel. Apenas Helena, que me levou para o apartamento que eu partilhava com o marido. O nosso lar.

O lugar parecia estranho, como se pertencesse a outra pessoa.

As fotos de nós os dois na parede pareciam uma mentira. O nosso casamento feliz, as nossas férias, os nossos sorrisos. Tudo uma farsa.

Helena ajudou-me a fazer uma mala. Roupas, artigos de higiene, o livro sobre gravidez que eu lia todas as noites.

Quando estava prestes a sair, vi o uniforme de bombeiro de Miguel, cuidadosamente pendurado. O cheiro a fumo ainda pairava sobre ele.

Por um momento, senti uma pontada de algo. Nostalgia? Tristeza?

Depois lembrei-me da lama, da água a subir, do silêncio no outro lado da linha.

A sensação desapareceu.

A minha mãe vivia numa pequena casa nos subúrbios. Ela abriu a porta, o rosto enrugado de preocupação.

"Minha filha! O que aconteceu? A Helena ligou-me."

Abracei-a, e pela primeira vez naquele dia, senti as lágrimas a quererem sair. Mas eu forcei-as a recuar.

Eu não ia chorar. Não por ele.

"Acabou, mãe. Eu e o Miguel."

Ela não fez perguntas. Apenas me guiou para dentro, para o quarto de hóspedes que sempre fora meu.

Naquela noite, recebi uma mensagem de um número desconhecido.

"Sofia, sou eu, a Clara. O Miguel contou-me o que aconteceu. Eu sinto muito. Eu não queria causar problemas."

Senti uma onda de raiva.

"Tu não causaste problemas, Clara. Tu és o problema."

A resposta dela foi instantânea.

"Isso não é justo. Nós temos uma história. O Miguel e eu... há coisas que tu não entendes."

"Eu entendo que o meu marido me deixou numa situação de perigo de vida por ti. Isso é tudo o que preciso de entender."

"Ele ama-te. Ele só estava preocupado comigo."

"Guarda as tuas desculpas. E diz ao Miguel para não me contactar mais. O meu advogado falará com ele."

Bloqueei o número dela também.

Sentei-me no escuro, a mão na minha barriga. O bebé mexeu-se, uma pequena ondulação sob a minha pele.

"Somos só nós os dois agora," sussurrei. "Eu vou proteger-te. Eu prometo."

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