A Prova da Negligência: O Abandono do Meu Marido

A enfermeira correu para dentro do quarto, com o rosto pálido.

"Conseguimos encontrar uma bolsa! O tipo de sangue é compatível! Vamos começar a transfusão imediatamente."

Senti um alívio momentâneo, uma onda de calor a espalhar-se pelo meu corpo frio. A escuridão nos cantos da minha visão começou a recuar.

Enquanto o sangue vermelho e vital entrava nas minhas veias, a minha mente começou a clarear.

O Pedro não tinha voltado.

Ele nem sequer tinha perguntado se eu ia sobreviver. Tinha ido direto para o berçário para ficar com a Eva.

A minha filha. O nome que ele escolheu.

Lembro-me de termos discutido sobre isso. Eu queria chamar-lhe Clara. Ele insistiu em Eva.

"É o nome da minha avó," ele disse. "Ela era uma mulher forte. Quero que a minha filha seja como ela."

Na altura, pareceu-me um gesto doce. Agora, parecia mais uma forma de ele marcar o seu território, de apagar a minha influência até no nome da nossa filha.

Quando a transfusão terminou e eu estava estável, a minha mãe entrou no quarto. Os seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar.

Ela agarrou na minha mão, e as suas mãos tremiam.

"Sofia, meu amor. Pensei que te ia perder."

"Estou bem, mãe. Sobrevivi."

A minha voz era um sussurro rouco.

"Aquele monstro," ela cuspiu a palavra. "O teu marido. Ele estava lá fora, a gabar-se ao telefone com a mãe dele sobre como a bebé é parecida com ele. Nem uma vez perguntou por ti."

Fechei os olhos. Não estava surpreendida. Apenas cansada.

"Mãe, eu quero o divórcio."

A minha mãe parou de chorar e olhou para mim, com uma determinação feroz a substituir a sua tristeza.

"Já devias ter feito isso há muito tempo. Ele nunca te mereceu."

Ela tinha razão. O casamento tinha sido um erro desde o início. Eu estava cega pelo seu charme inicial, pela forma como ele me prometeu o mundo.

Mas as promessas dele eram vazias, como a sala de espera do lado de fora da minha porta.

"Ajuda-me, mãe. Eu não consigo fazer isto sozinha."

"Claro que ajudo," disse ela, apertando a minha mão com mais força. "Vamos tirar-te daqui. Tu e a minha neta."

A menção da minha filha trouxe uma nova onda de dor.

Como é que eu ia separar uma filha do pai dela, mesmo que ele fosse um monstro?

Mas a alternativa era pior. Ficar com um homem que me via como um inconveniente, um obstáculo para a sua felicidade. Um homem que me teria deixado morrer para não ter de enfrentar uma agulha.

Não. A minha filha merecia mais. Ela merecia uma mãe viva e um exemplo de força, não de submissão.

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