A Promessa Quebrada: Um Amor Perdido na Mentira

Saí do hotel a cambalear, as lágrimas a queimarem-me os olhos. O ar de São Paulo parecia pesado, sufocante. Eu só queria voltar para Salvador, para a minha vida, para longe daquela dor.

Mas, ao chegar ao lobby, dois homens de fato preto, claramente seguranças, interceptaram-me.

"Senhorita Dixon, o Sr. Dixon gostaria de falar consigo."

Sr. Dixon. O meu tio. O pai de Nicole. O homem que me acolheu quando a minha mãe morreu, mas que nunca me tratou como família. Senti um calafrio.

Levaram-me até um carro preto e, minutos depois, estávamos em frente a uma mansão imponente. Fui conduzida a um escritório luxuoso, onde o meu tio, Ricardo Dixon, me esperava, sentado atrás de uma secretária de mogno.

"Lauren", disse ele, sem sequer me olhar nos olhos. "Há quanto tempo."

A frieza dele era familiar. Nunca houve calor, nunca houve afeto. Eu era apenas a filha da irmã pobre da sua esposa, uma obrigação que ele cumpria com relutância.

"O que quer de mim, tio?" perguntei, a minha voz ainda trémula.

Ele finalmente levantou o olhar. Havia desprezo nele.

"A Nicole vai casar-se com o Hugo. É um casamento muito importante para a nossa família, para os nossos negócios. Não quero que nada o estrague."

"Eu não vou estragar nada. Só quero ir embora."

Ele riu, um som seco e sem alegria.

"Não sejas ingénua. Eu sei que estás aqui por dinheiro. Sempre foste como a tua mãe, a sonhar com uma vida que não te pertencia."

A menção à minha mãe fez o meu sangue ferver.

"Não fale da minha mãe."

Ele ignorou-me, abrindo uma gaveta e tirando um envelope grosso. Empurrou-o pela mesa.

"Aqui tens. Cinquenta mil reais. Pega nisto e desaparece. Volta para a tua Bahia e não voltes a aparecer na vida da minha filha."

Cinquenta mil reais. O preço do meu silêncio. O preço para eu desaparecer. A humilhação era tão grande que me senti tonta. Olhei para o envelope, depois para ele. Um desafio nasceu dentro de mim.

"Cinquenta mil? Acha que a minha dignidade vale tão pouco? Eu quero quinhentos mil."

Ele arregalou os olhos, chocado com a minha audácia.

"Estás louca?"

"É o meu preço. Ou isso, ou talvez eu decida contar ao Hugo algumas verdades sobre a sua noiva perfeita."

Foi nesse momento que a porta do escritório se abriu. Hugo e Nicole entraram. Hugo ouviu a minha última frase. O rosto dele endureceu ainda mais.

"Gananciosa como sempre, Lauren. A tentar extorquir dinheiro do teu próprio tio. Não tens vergonha?"

Nicole correu para o lado do pai, fingindo-se magoada.

"Pai, como é que ela pode fazer isto? Depois de tudo o que fizemos por ela."

Eu não aguentei mais. O veneno acumulado durante anos explodiu.

"Fizeram por mim? Vocês nunca fizeram nada por mim! Trataram-me como lixo, como uma empregada! A tua mãe sempre me humilhou, disse que eu tinha o sangue sujo da favela, como a minha mãe!"

"Cala a boca!" gritou Nicole. "Não te atrevas a comparar-te a mim! Eu sou uma Dixon, tu não és nada!"

"Eu sou filha da minha mãe! E tenho mais orgulho disso do que tu alguma vez terás deste nome comprado!"

A fúria descontrolada tomou conta do meu tio. Ele levantou-se de um salto, contornou a mesa e, antes que eu pudesse reagir, deu-me uma bofetada com toda a força.

O impacto atirou-me ao chão. O meu lábio partiu-se e senti o gosto metálico de sangue na boca. Fiquei ali, atordoada, a olhar para o rosto furioso do meu tio, para a satisfação no rosto de Nicole e para a indiferença gelada no rosto de Hugo.

Mais tarde, o caos parecia ter diminuído. Eu estava perto da piscina da mansão, a tentar recuperar o fôlego, a pensar em como sair dali. Nicole aproximou-se, o seu sorriso era pura maldade.

"Sabes, Lauren, o Hugo nunca te amou de verdade. Ele só tinha pena de ti. Agora, ele ama-me. Ele faria qualquer coisa por mim."

Ela chegou mais perto, a sua voz um sussurro venenoso.

"E eu vou certificar-me de que ele te odeie para sempre."

Com um movimento rápido, ela agarrou-me e atirou-se comigo para dentro da piscina. A água fria foi um choque. Eu debati-me, a tentar vir à superfície, mas Nicole agarrou-se a mim, a empurrar-me para baixo, a gritar por socorro como se fosse ela a vítima.

"Socorro! Hugo! Ela empurrou-me! Ela quer matar-me!"

Hugo apareceu à beira da piscina. Sem hesitar, ele mergulhou e nadou diretamente para Nicole, puxando-a para a segurança da borda. Eu continuei a lutar, a água a encher-me os pulmões. Um trauma de infância, um quase afogamento num rio, voltou com uma força avassaladora. O pânico tomou conta de mim. Hugo sabia desse medo. Eu tinha-lhe contado, numa noite de confidências, anos atrás.

Enquanto a minha consciência se esvaía, vi-o a segurar Nicole, a confortá-la, olhando para mim com acusação. Ele salvou-a a ela primeiro. E deixou-me a afogar.

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