Cheguei a casa e a porta estava aberta. A sala, que horas antes estava cheia de balões e risos, agora estava silenciosa e fria.
Restos do bolo de nozes ainda estavam na mesa da cozinha, um monumento grotesco à tragédia.
Pedro estava sentado no sofá, a cabeça entre as mãos. Helena não estava à vista.
Ele levantou a cabeça quando entrei. Os seus olhos estavam vermelhos, mas não havia lágrimas. Havia apenas raiva.
"Onde estavas? A mãe precisava de ti."
"Eu estava no hospital. Com o nosso filho."
As palavras saíram frias e afiadas.
Ele levantou-se, aproximando-se de mim.
"Não fales assim. A mãe não teve culpa. Foi um acidente."
"Um acidente que eu avisei que ia acontecer. Um acidente que tu permitiste."
Ele agarrou-me pelo braço, a sua força surpreendeu-me.
"Pára com isso, Sofia. Estás a culpar a minha mãe para não te sentires culpada. Tu é que eras a mãe dele. Devias ter estado mais atenta."
A sua acusação atingiu-me como um soco. Eu era a mãe dele. E falhei em protegê-lo deles.
Puxei o meu braço com força, libertando-me.
"Eu quero o divórcio, Pedro. Já não há mais nada para conversar."
Virei-me para ir para o quarto, para fazer as minhas malas, para fugir daquela casa que se tornara um túmulo.
"Não vais a lado nenhum!", ele gritou. "Tu não me podes deixar agora! O que é que as pessoas vão pensar? Que nos separámos logo depois da morte do nosso filho? Vão pensar que a culpa foi nossa!"
A preocupação dele não era a nossa dor. Era a aparência. A opinião dos outros.
"Eu não me importo com o que as pessoas pensam."
"Pois eu importo-me! A minha família tem um nome a zelar. Não vais destruir tudo por causa de um capricho teu."
Ele bloqueou o meu caminho para o quarto.
"Sai da minha frente, Pedro."
"Não. Vamos conversar como pessoas civilizadas."
"Não há nada para civilizar. O nosso filho está morto por causa da tua mãe. E tu ficas do lado dela. Fim da história."
A cara dele contorceu-se de raiva.
"Ela é minha mãe! Queres que eu a abandone? Ela está destroçada!"
"E eu? Eu não estou? Eu perdi o meu filho! O nosso filho!"
A minha voz finalmente quebrou, e as lágrimas que eu segurava começaram a cair, quentes e amargas.
Ele vacilou por um momento, a sua expressão suavizou-se. Mas foi apenas por um segundo.
"Claro que estás. Estamos todos. Mas culpar os outros não vai trazer o Leo de volta."
Ele não entendia. Ou não queria entender.
Para ele, era uma questão de lealdade familiar. Para mim, era uma questão de justiça. De traição.
"Vou ficar na casa da minha mãe. O meu advogado entrará em contacto contigo."
Empurrei-o para o lado com a força que me restava e entrei no quarto, fechando a porta atrás de mim.





