A Noiva Abandonada e a Justiça Que Se Fez

A minha mãe, que até então estava em silêncio e a chorar, explodiu.

"Coisa pequena? O senhor chama a isto uma coisa pequena? A minha filha acabou de perder uma perna! Uma perna, está a ouvir?"

A sua voz tremia de raiva. "O seu filho, o meu futuro genro, deixou-a a sangrar na estrada para ir consolar outra mulher por causa de um gato perdido! E o senhor acha que ela é que está errada?"

O Senhor Alves ficou sem palavras por um momento. Depois, a sua voz tornou-se fria e cortante.

"Clara, não sejas dramática. O Diogo fez o que qualquer bom amigo faria. A Sofia estava em choque. A Lia já estava a ser socorrida pelos paramédicos. O que querias que ele fizesse? Que ficasse ali a olhar?"

"Eu queria que ele se comportasse como um noivo! Que ficasse ao lado dela! Que segurasse a mão dela! Que lhe dissesse que tudo ia ficar bem!"

"Ele é um homem, não uma ama. Ele lida com as coisas de forma prática. Além disso, a Lia é forte, ela supera isto. A Sofia é mais frágil."

A minha mãe riu, um som desprovido de qualquer alegria.

"Frágil? A Sofia? Ela sempre conseguiu tudo o que quis, manipulando todos à sua volta com essa falsa fragilidade. E vocês caem sempre."

"Chega, Clara. Diz à Lia para parar com estas infantilidades. Um casamento não se desfaz por um capricho. Ela precisa do Diogo agora mais do que nunca."

"Ela não precisa de ninguém que a coloque em segundo lugar, atrás de um gato. Acabou, Senhor Alves. O noivado acabou."

A minha mãe desligou o telefone com uma força que fez o aparelho tremer na sua mão.

Ela olhou para mim, os seus olhos cheios de uma determinação feroz que eu não via há anos.

"Filha," disse ela, a sua voz agora calma mas firme, "nós não precisamos deles. Nunca precisámos."

Eu assenti, uma lágrima solitária finalmente a escorrer pela minha face.

Naquele momento, senti um alívio imenso. A decisão estava tomada.

A porta do quarto abriu-se de repente.

Eram o Diogo e a Sofia.

A Sofia tinha os olhos vermelhos, como se tivesse chorado durante horas. Ela correu para a minha cama.

"Lia! Oh, meu Deus, Lia, eu sinto tanto! Eu só soube da gravidade disto agora! O Diogo disse que estavas bem, apenas com uns arranhões!"

Ela agarrou a minha mão, as suas unhas perfeitamente pintadas a contrastar com a minha pele pálida.

O Diogo ficou à porta, com uma expressão culpada, mas também desafiadora.

"Eu não queria preocupar-te," disse ele, a sua voz baixa. "Pensei que era melhor manter a calma."

Manter a calma? Ele mentiu.

Olhei para a Sofia, depois para ele. A peça de teatro deles era quase convincente.

"O teu gato," disse eu, a minha voz rouca. "Encontraste o Mimo?"

A Sofia fungou. "Ainda não. Estou tão preocupada."

"Claro que estás," respondi, retirando a minha mão da dela. "Deve ser terrível. Perder algo que se ama."

O sarcasmo na minha voz era palpável. O Diogo franziu a testa.

"Lia, não sejas assim."

"Assim como, Diogo? Amputada? Ou apenas cansada das tuas mentiras?"

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