Precisei juntar toda a coragem que me restava quando me deparei com a porta de John. O escritório dele ficava no canto da redação, separado por paredes de vidro que permitiam uma visão do caos exterior, mas mantinham uma barreira de privacidade quando abaixava as persianas.
A placa com o nome "Johnathan Hale, Chefe de Redação" reluzia sob a luz artificial, como um aviso de que eu estava prestes a entrar em território perigoso. Sabia que ficar parada ali, com os pés cravados no carpete cinza e desgastado, não adiantaria de nada. Meu coração batia acelerado, ecoando o zumbido constante dos telefones e das conversas murmuradas ao redor. Respirei fundo, ergui a mão e dei dois toques leves na madeira polida. "Entre," veio a resposta dele, grave e impaciente, como um juiz convocando um réu. Abri uma fresta na porta, enfiando apenas a cabeça para dentro, como se pudesse adiar o inevitável. O ar dentro do escritório era mais fresco, impregnado com o cheiro sutil de café forte e papel velho, um contraste com o odor de tinta fresca e estresse da redação lá fora.
John estava sentado à sua mesa de mogno, rodeado por pilhas organizadas de pastas e um computador que parecia uma extensão de seu corpo. Ele ergueu os olhos por cima dos óculos de armação fina, e sua expressão, já severa, pareceu piorar ao me ver – se é que isso era possível. Aquela ruga entre as sobrancelhas se aprofundou, e senti um frio na espinha.
Meu chefe de redação tem uma aparência imponente e marcante, mesmo aos cinquenta anos. Sua sabedoria transparece em cada ruga que marca seu rosto, linhas finas que contam histórias de noites insones perseguindo verdades ocultas. Os óculos que repousam sobre o nariz aquilino realçam sua postura altiva, acompanhados por um olhar penetrante e sério que parece capaz de desvendar mentiras com um simples piscar. Sua pele negra mal denuncia a passagem do tempo, fazendo-o parecer mais jovem do que sua idade sugere, como se o jornalismo o tivesse preservado em uma cápsula de determinação. Tudo nele carrega a história de sua carreira notável – das reportagens de guerra nos anos 90 às investigações que derrubaram corruptos em Wall Street. Ele é alto e magro, com uma postura ereta que denota a confiança de alguém que conquistou seu espaço no jornalismo, passo a passo, contra todas as probabilidades. Seus cabelos grisalhos se destacam contra a pele escura, testemunhando sua experiência e maturidade, como fios de prata tecidos em uma tapeçaria de conquistas. John é um homem respeitável, cujo olhar crítico e expressão severa podem intimidar até os mais corajosos. Eu definitivamente não me considerava corajosa naquele momento; sentia-me como uma estagiária novamente, prestes a ser julgada.
- Bom dia, Srta. Harris! - disse ele, ainda escrevendo em seu caderno de anotações com traços rápidos e precisos, enquanto verificava algo na tela do notebook. Sua voz era baixa, mas carregada de uma autoridade que não admitia bobagens e o fato de usar meu sobrenome deixava claro o quanto estava irritado comigo.
- Bom dia, John... - respondi, fechando a porta atrás de mim com um clique suave que ecoou no silêncio relativo do escritório. Encostei-me à porta por um segundo, segurando os papéis amassados contra o peito, como se fossem um escudo. - Eu gostaria de me desculpar. Tive um problema com o...
- Carro? - completou ele, sem levantar os olhos imediatamente. Percebi que as pessoas na redação já estavam acostumadas com minhas crises de relacionamento com Petúnia – aquela lata-velha que teimava em me deixar na mão nos piores momentos.
Engoli em seco, incapaz de responder de imediato, e meu silêncio foi suficiente para que ele entendesse. A sensação desconfortável de estar sempre dando desculpas ultimamente me atingiu como uma onda, fazendo-me sentir irresponsável e pequena. Meus olhos baixaram para o chão, onde o tapete oriental sob a mesa de John exibia padrões intrincados em tons de vermelho e dourado, um luxo raro em um ambiente tão prático quanto a News Cooperative. Não poderia dar nenhuma explicação diferente para John; não podia contar o quanto havia trabalhado duro até tarde da noite, vasculhando fontes e redigindo rascunhos, porque isso era meu trabalho. Eu tinha a obrigação de equilibrar as coisas como uma mulher adulta, de gerenciar meu tempo e minhas responsabilidades. Nada disso era culpa de John ou de qualquer outra pessoa – ou coisa, no caso de Petúnia. Embora ela não estivesse facilitando nada a minha vida ultimamente, com seus caprichos mecânicos que pareciam conspirar contra minha pontualidade.
John respirou fundo, alheio à confusão de pensamentos que rodopiavam em minha mente como um redemoinho. Ele largou a caneta sobre a mesa com um som seco, encostou-se na cadeira de couro preta – que rangia levemente sob seu peso – e passou a mão pelos olhos, abaixo dos óculos quadrados, como se buscasse paciência em algum reservatório interno esgotado.
O escritório dele era um santuário de ordem em meio ao caos da redação: prateleiras alinhadas com livros encadernados em couro, prêmios jornalísticos emoldurados nas paredes creme, e uma janela ampla que oferecia uma vista parcial dos arranha-céus de Manhattan, agora velada pelas persianas semicerradas, mas eu duvidava que sua mente estava tão organizada ou calma quanto seu local de trabalho aparentava nesse momento.
- Eu lhe trouxe a matéria sobre o caso da Bonjour La Vie que me pediu na semana passada... - comecei, estendendo os papéis com uma mão trêmula, tentando mudar o foco para algo produtivo. Mas John ergueu uma das mãos para me interromper, um gesto simples e definitivo, e eu abaixei os papéis devagar, sentindo o peso da decepção se instalar no meu estômago.
- Tyler já me entregou essa matéria esta manhã. Antes de você chegar! - ele disse, olhando-me seriamente, com ênfase na última parte da frase. Seus olhos pareciam sondar minha alma, e eu me senti exposta, como se ele pudesse ver através das minhas desculpas recorrentes.
- Mas essa matéria era minha... Como ele... - Minha voz saiu calma, porém eu estava confusa, em um misto de frustração e incredulidade.
Tyler, sempre o Tyler – o colega ambicioso que parecia farejar oportunidades como um cão de caça, roubando ideias e créditos com uma habilidade que me irritava profundamente.
- Mia, eu realmente precisava conversar com você... - interrompeu John, fechando o notebook com um clique firme. Ele se levantou, contornando a mesa com passos deliberados, parando em frente a ela e cruzando os braços sobre o peito. Sua altura o tornava ainda mais intimidante, projetando uma sombra sobre mim. - Quero saber o que está acontecendo? Porque, sinceramente, você não parece mais a mesma garota que conheci há dois anos.
Mais uma vez, me vi sem resposta, as palavras morrendo na garganta. Aquilo me atingiu como um soco no estômago, porque eu sabia que era verdade. Eu não estava alcançando o que pensei que alcançaria quando comecei a trabalhar aqui, naquela redação vibrante e impiedosa de Manhattan, onde sonhos e carreiras se faziam e se desfaziam diariamente.
- Olha, eu nem deveria falar isso, mas houve uma reunião e falaram sobre cortes, e seu nome foi mencionado...
Meus olhos se arregalaram, o desespero imediatamente tomando conta de mim como uma maré gelada. Se isso acontecesse, eu seria obrigada a voltar a morar com meus pais, em uma cidadezinha suburbana onde as oportunidades de jornalismo se resumiam a cobrir feiras locais e casamentos. Não teria condições de manter meu apartamento aqui, com suas paredes finas e vista parcial para o Central Park, pagando um aluguel que já consumia boa parte do meu salário. Tudo iria por água abaixo – os sacrifícios, as noites em claro, as rejeições que me trouxeram até esta mesa na News Cooperative. Tudo pelo que lutei para chegar aqui, para escapar do comum e mergulhar no mundo real do jornalismo investigativo.
- Tudo bem... - John continuou, caminhando até as janelas e fechando as persianas com um movimento suave, bloqueando a visão da redação e sinalizando que não queria ser interrompido. O cômodo escureceu ligeiramente, criando uma atmosfera mais íntima, como se estivéssemos em uma confissão privada. - Não estou falando como seu chefe agora, mas como um amigo, Mia. Você é uma jornalista incrível, e sou suspeito para falar, já que particularmente sou fã da matéria que você fez quando se inscreveu para o programa de estágio. Aquela garota, mesmo tão jovem, impactou o mercado ao expor empresas conhecidas envolvidas em desvio de dinheiro. Foi essa garota que me fez aceitar sua admissão nesta empresa e lhe dar uma mesa. Não quero menosprezar o trabalho de ninguém aqui, mas eu não a aceitei em minha equipe para escrever matérias sobre produtos de skincare da Bonjour La Vie que causaram bolhas na pele de uma influenciadora qualquer. Isso, Mia, não é notícia. Isso não é jornalismo!
Não consegui sustentar seu olhar, tamanha era minha vergonha. Baixei os olhos para as minhas mãos, onde os papéis sobre a Bonjour La Vie pareciam zombeteiros, símbolos da minha estagnação. De fato, eu havia feito aquela matéria para o processo de admissão na News Cooperative, onde cada candidato precisava apresentar algo impactante. Geralmente, essas matérias não eram publicadas; serviam apenas para avaliar o perfil jornalístico do aspirante. No entanto, acabei usando uma investigação sobre uma empresa fake que estava sendo investigada por desvio de dinheiro – uma história que desenterrei com noites de pesquisa e contatos arriscados. Tive a brilhante ideia de usá-la no meu teste de admissão, e, para minha surpresa, a matéria foi publicada no mesmo dia em que fui aprovada. O impacto foi imediato: chamadas de elogios, menções em blogs de jornalismo, um sopro de esperança de que eu estava destinada a algo grande. Mas agora, aqui estava eu, presa em matérias superficiais, escrevendo sobre escândalos de beleza que mal arranhavam a superfície do que o jornalismo verdadeiro representava. Eu não entendia como havia chegado a esse ponto, como minha paixão havia se diluído em rotinas medíocres quando essa não era minha verdadeira vocação. Era como se uma parte de mim tivesse se perdido no labirinto de prazos e expectativas corporativas.
- Preciso daquela garota de volta, Mia. Ou sinto muito, não poderei mais manter uma mesa para você neste jornal. - disse John, sua voz baixa e carregada de uma compaixão que eu raramente via nele. Finalmente consegui encará-lo, e vi nos seus olhos não apenas a severidade de um chefe, mas a genuína preocupação de alguém que acreditava em mim.
- Me dê uma última matéria!- pedi, minha voz saindo mais firme do que pretendia, mas mantive a postura, endireitando os ombros como se isso pudesse me dar força. - Uma última chance de garantir meu lugar nesta mesa, John. E eu prometo que farei por merecer! - Joguei os papéis em meu colo na poltrona ao meu lado, o som do papel amassado ecoando como um ponto final naquela fase da minha vida. - Mas não algo assim... Quero algo grande... Algo... - Procurei pelas palavras, fechei os olhos por um instante e respirei fundo, sentindo o ar fresco do ar-condicionado acalmar minha mente agitada. - Apenas me dê algo em que eu possa realmente trabalhar! E fazer jornalismo de verdade!
John semicerrou os olhos em minha direção, considerando minha proposta. Pareceu uma eternidade até que ele finalmente disse algo, o silêncio preenchido apenas pelo tique-taque distante de um relógio na parede.
- Muito bem. Tenho uma matéria em potencial que talvez possa ser adequada para você.
- Mas...? - perguntei, sentindo aquele "porém" pairando no ar como uma ameaça velada. Ele me olhou sugestivamente, e eu soube que agora não havia mais como voltar atrás.
- Mas é perigosa demais, especialmente para uma mulher. Não sei se é uma boa ideia. Eu estava pensando em entregá-la ao Tyler.
- Isso é machista! - acusei, provocando-o em tom de brincadeira, tentando aliviar a tensão. Ele apenas negou com a cabeça enquanto ria baixinho e voltava para perto de sua cadeira, sentando-se com um suspiro. - Qual é? Posso fazer um trabalho muito melhor do que o Tyler, seja perigoso ou não. - Ele me encarou desafiadoramente, como se testasse minha resolução.
- Faz parte do trabalho...? - tentei mais uma vez, inclinando-me para frente na cadeira.
- Tudo bem. - ele soltou uma risada pelo nariz, um som raro que aliviou um pouco o peso no meu peito. - Essa é uma matéria sobre um incidente que aconteceu há um ano e meio. Alguns decks pegaram fogo e alguns outros lugares da mesma companhia também foram incendiados no mesmo dia. - Ele pegou uma pasta marrom da gaveta lateral da mesa e a colocou sobre a superfície polida, sentando-se em sua cadeira e girando-a para me encarar diretamente. Com um gesto de mão, ofereceu-a para mim.
Ajeitei-me em minha cadeira que estava em frente a ele, o couro macio rangendo sob meu peso, e peguei a pasta, abrindo-a diante de mim para verificar seu conteúdo. Havia várias fotos em preto e branco dos locais incendiados – estruturas carbonizadas contra o céu noturno, fumaça ainda subindo em espirais – e folhas datilografadas explicando o ocorrido, com datas, testemunhas e relatórios preliminares.
- Isso foi investigado por alguns dias, mas misteriosamente pararam de investigar. O problema é que muitas informações vazaram para a mídia, e agora todos estão comentando sobre o envolvimento de alguma máfia nesse caso.
Fiquei incrédula enquanto folheava o conteúdo, as imagens de destruição contrastando com as descrições de uma organização que, segundo os relatórios, agia nas sombras.
- Houve outras situações que parecem ter o envolvimento de pessoas que trabalham para a Tríade ou a Yakuza, mas nesse caso, parece que algum dos dois está agindo como uma organização apoiadora da sociedade, ajudando regiões desfavorecidas e diminuindo a ocorrência de crimes hediondos. Não sabem qual das duas ou porquê, pela minha experiência diria que podemos estar tratando com algum caso de briga de gangues. - ele me encarou sério e eu apenas assenti, digerindo toda a informação. - Algumas pessoas os defendem, outras os odeiam. Quero que pesquise essas opiniões, ouça as pessoas que moram nessas áreas e tire suas próprias conclusões. - assenti em confirmação, folheando o conteúdo. - E Mia, todos os bons jornalistas que conheço estão com medo de falar sobre isso, não querem ser alvo de represálias ou de chamar atenção de pessoas erradas. É muito perigoso! Como seu chefe tenho o dever de informá-la. - Seu tom de voz ficou sério e preocupado, os olhos fixos nos meus como se tentasse me dissuadir.
- Somos uma empresa de jornalismo, John, é isso que fazemos, não é? "Ir onde ninguém mais vai e dizer ao mundo o que ninguém tem coragem de dizer", foi isso que você me disse quando me aceitou na equipe. - Dei de ombros, guardando o material com cuidado e fechando a pasta, ciente de que não podia deixar aquela sala sem ela. O peso da mesma em minhas mãos parecia simbólico, um fardo que eu estava disposta a carregar. - Eu sei que posso voltar a ser a jornalista que você conheceu, mas preciso da sua ajuda mais uma vez. - Meu olhar suplicante pareceu surtir o efeito desejado, pois John fez aquela expressão que sempre fazia quando eu conseguia convencê-lo a algo – uma mistura de resignação e orgulho paternal.
- A matéria é sua! - disse ele, e precisei me segurar para não pular de alegria, contendo um sorriso que ameaçava se espalhar pelo meu rosto. - Mas prometa que terá cuidado e me mantenha informado sobre o andamento disso. - Ele cutucou a mesa com o dedo indicador, enfatizando cada palavra.
- Sim, sim. Eu prometo! - Agarrei a pasta e a abracei contra o peito, sentindo o objeto grosso contra minha blusa listrada. - Não vou decepcionar, eu garanto.
- Eu espero que não. Leve o tempo que precisar. Dispensada. - Agradeci mais uma vez antes de me levantar e ir em direção à porta, mas parei ao segurar a maçaneta fria de metal, uma dúvida final me detendo.
- John? - Ele respondeu com um murmúrio distraído, enquanto abria novamente seu notebook e segurava a agenda, ajustando os óculos e folheando as páginas amareladas. - Você poderia, por favor, não comentar nada disso com o Tyler? - Ele me olhou desconfiado e analítico por cima das lentes novamente, como se avaliasse minha paranoia. - Tenho boas razões para acreditar que ele anda sabotando minhas matérias. Pode manter isso entre nós?
- Eu estava me perguntando quando você iria perceber... - respondeu ele, com um aceno sutil de cabeça. - Tem minha palavra! Manteremos essa matéria em sigilo de todos, por enquanto. -
E com isso, ele voltou a se concentrar em seu trabalho, mergulhando nas anotações como se a conversa nunca tivesse acontecido. Assenti, sorrindo para mim mesma, e saí da sala muito mais feliz do que jamais imaginaria estar. Tinha uma nova matéria, e das grandes. Tinha tudo para ser um sucesso, e eu daria o meu melhor. Isso não só salvaria meu emprego, mas também minha carreira como jornalista investigativa. E eu sabia que John havia me dado essa oportunidade porque sabia que eu poderia ir além do que qualquer um teria coragem de ir – mergulhar nas sombras da Máfia, desvendar seus segredos, e emergir com a verdade.
De volta à redação, o burburinho voltou a me envolver: telefones tocando, colegas digitando furiosamente, o cheiro de café requentado pairando no ar. Iris ainda estava em sua mesa na recepção, organizando pilhas de correspondências com eficiência habitual.
- Você está com aquela expressão sinistra que não vejo há muito tempo. - comentou ela, quando depositei a pasta em sua mesa por um momento e respirei fundo, tentando processar o que acabara de acontecer. - Ele te deu uma nova matéria? - sussurrou, inclinando-se para frente, os olhos castanhos brilhando com cumplicidade.
Nós duas não gostávamos muito de Tyler, e eu já havia comentado com ela sobre ele sempre tentar pegar os trabalhos que eram destinados a mim, como um predador farejando fraquezas. Assenti, incapaz de não sorrir, o alívio se misturando à empolgação. Mas antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, Tyler apareceu como uma assombração sendo invocada, surgindo de trás de uma divisória com seu sorriso falso e passos calculados.
- Bom dia, meninas! - disse ele, com aquela voz untuosa que me dava naúseas. Disfarcei minha expressão de imediato, pegando a pasta de volta e mantendo-a perto do peito, como se protegesse um tesouro. Iris o cumprimentou a contragosto, também disfarçando seu desdém, e voltou ao trabalho, fingindo organizar papéis.
- Bom dia, Tyler. - respondi, forçando um tom neutro. Seus olhos me analisavam desconfiados, fixando-se no material que eu segurava, como se tentasse ler através da capa.
- Matéria nova, Harris - Seu sorriso debochado surgiu, provavelmente pensando que era a matéria que ele já havia entregado a John no meu lugar hoje, roubando meu crédito mais uma vez.
- Ah... Isso? Era sobre a Bonjour La Vie, mas John disse que não precisava mais. - Seu sorriso presunçoso cresceu ainda mais, satisfeito com sua pequena vitória, mas eu o deixaria acreditar naquilo. Seria um prazer ver a expressão em seu rosto quando ele descobrisse que lancei uma matéria à qual ele não teve acesso – algo profundo, perigoso, que exigiria coragem que ele nunca demonstrou. - Bem, eu preciso ir. Até mais, Iris! - Dei as costas a Tyler para evitar qualquer provocação adicional e fui direto para a minha mesa, no canto da redação, onde a luz da janela incidia sobre o monitor empoeirado.
Abri o notebook com mãos ansiosas, o cursor piscando como um convite à ação. No entanto, antes de mergulhar nas pesquisas sobre a Tríade e Yakuza – aqueles incêndios misteriosos, as vazadas informações, as opiniões divididas da sociedade –, havia uma ligação que eu precisava fazer. Esperava que ele pudesse me ajudar mais uma vez, talvez com contatos ou insights que eu não tinha. Isso seria um divisor de águas para o meu sucesso ou fracasso, o momento em que eu provaria que ainda era a jornalista que expusera corrupção no passado.





