Violeta
O mês de maio havia começado bem empolgante no meu trabalho, cheio de problemas para serem resolvidos e sem tempo para que pudesse ser incomodada por meus colegas de empresa. Não, eu não estou sendo sarcástica, eu sequer sei fazer isso direito, mas a questão é que não sou uma pessoa muito social, tenho um grupo de amigos que estão na minha vida desde a infância, com a exceção de Victor, que aprendeu muito rápido o quanto aprecio meus momentos silenciosos - minha mente já faz barulho suficiente sem precisar jogar conversa fora -, e ele se tornou então minha companhia favorita durante a faculdade. Foram quatro anos complicados, que se tornaram um pouco mais leves com meu novo melhor amigo do meu lado.
Mas, desviei do assunto. Faço isso com mais frequência do que gostaria. Estava contando que não sei ser sarcástica. Eu realmente amo dias como o que me esperava quando chegasse na empresa e ligasse a tela do meu computador. Quando me candidatei para a vaga, não imaginava que precisaria resolver tanto pepino e a confusão que o antigo responsável pela área tinha deixado, mas realmente não me vejo reclamando disso. Eu amo o que faço e me adaptei melhor do que imaginava ao meu emprego.
Só que antes de começar de fato o meu dia, eu precisava de uma boa dose de cafeína. Nada melhor do que um copo grande de café preto com muito açúcar às sete da manhã da minha cafeteria preferida para acordar de verdade. Ela fica do outro lado da rua da empresa onde trabalho e se tornou meu ponto de parada de toda manhã e foi onde meu dia perfeito que mal tinha começado, entrou em colapso.
Eram só sete da manhã, eu estava na fila para pedir meu café habitual, atrás de um dos homens mais lindos que eu já coloquei meus olhos. Quase dois metros de pura gostosura, ele tem ombros largos, músculos que se destacam no terno feito sob medida, mas não de forma exagerada - eu não sou uma grande fã de caras com músculos demais -, além de cabelos castanhos claros e hipnotizantes olhos castanhos como avelã.
Como eu sei disso se ele estava de costas para mim? Isso é porque o homem se chama Felipe Vasconcellos e é o meu chefe, ou melhor, o grande CEO da empresa onde trabalho que arranca suspiros e xingamentos sempre que passa pelos corredores. Apesar da beleza, nunca o vi conseguir ou entregar um sorriso sequer de seus funcionários. Pelo que percebi nesses cinco meses desde que entrei para o grupo de funcionários, ele era o tipo de chefe que acreditava que o melhor era sempre manter distância de relações amigáveis com seus subordinados.
E como se tivesse sentido a secada que eu estive dando em sua bunda, que ficava linda naquela calça social, ele se virou, me prendendo em seu olhar intenso. Sem demonstrar ter me reconhecido, em segundos voltou a atenção para o que estava a sua frente. Eu faria o mesmo se tivesse um café sendo entregue a mim… a menos que a outra vista fosse dele, confesso.
Minha concentração na bunda do meu chefe, no entanto, foi cortada assim que ouvimos um grito vindo de trás do balcão. Saltei pelo susto ao mesmo tempo que ele deu um passo para trás, virando o café em si mesmo no processo.
- Merda! - xingou, mas até mesmo ele paralisou ao ver as chamas que surgiram do nada.
Nem mesmo os funcionários pensaram em impedir o fogo, apenas correram para a saída. Na pressa de todos, pela primeira vez na vida, fiquei aturdida com a situação e me vi tropeçando em meus próprios pés, ao mesmo tempo em que desviava das pessoas que passavam correndo na direção da saída.
Senti mãos grandes me segurando e impedindo que mais uma pessoa trombasse comigo, se colocando ao meu lado. Ao erguer o olhar para agradecer a ajuda, encontrei os familiares olhos castanhos de Felipe, que me estendeu a mão que esteve firme no meu braço.
- Ei! Segura minha mão. Vou nos tirar daqui. - disse ele, embora tenha parecido mais uma ordem do que um pedido.
Assenti, sem conseguir encontrar minha própria voz e segurei a mão dele, que pareceu engolir a minha. Apressado, Felipe seguiu as poucas pessoas que restavam para a saída, me puxando junto com ele. Só paramos ao atravessar a rua e deixar a intensa movimentação de pessoas para trás.
- Obrigada! - disse, quando paramos na calçada do outro lado da rua, assistindo os bombeiros chegando e seguindo para apagar o fogo.
Senti os olhos de Felipe no meu rosto, mas permaneci focada na cafeteria, enquanto retomava a respiração e me acalmava.
- Está melhor? - perguntou ele, parecendo preocupado.
- Estou bem. Foi só um susto. - respondi e por alguma razão, ele não parecia acreditar em mim.
- Tem…
Antes que Felipe tentasse de novo, foi interrompido pela presença enorme de um homem com a farda do corpo de bombeiros. Precisei de alguns segundos para reconhecê-lo e imaginei que meu chefe não estava tão errado assim em duvidar do meu estado. Se eu não reconheci meu próprio irmão, eu não estava bem. Tirando seus cabelos pretos, quando estávamos juntos era como se olhar no espelho.
- Violeta! Você está bem? Quando reconheci a cafeteria, fiquei preocupado. - gritou Jonas, por cima das vozes alteradas do outro lado da rua.
- Foi um susto e tanto, mas estou bem. Vá apagar o fogo, não posso ficar sem minha cafeteria preferida. - mandei, arrancando um sorriso do bombeiro enorme na minha frente.
Apesar do meu irmão ser um grande pedaço de mal caminho, tão bonito quanto eu mesma, quem nos via na rua, jamais chegaria perto, já que Jonas sempre andava de cara fechada por aí, parecendo ainda mais assustador com os músculos e o tamanho. Tínhamos os mesmos olhos azuis do nosso pai, mas enquanto eu havia herdado os cabelos loiros dele, Jonas tinha ficado com os cabelos pretos da nossa mãe. Todos os filhos do seu João e da dona Vitória, nossos pais, tinham os olhos azuis.
- Já está controlado. Por sorte, eles só vão precisar dar um jeito na cozinha. Chegamos a tempo para impedir de algo pior acontecer. - A voz do meu irmão me trouxe de volta e assenti rapidamente, mostrando que tinha ouvido.
- Se cuide. - pedi, como sempre fazia.
- Digo o mesmo irmãzinha.
Após me dar um beijo rápido no rosto, ele correu de volta para o seu posto no caminhão de bombeiros e eu estava pronta para ir trabalhar. Ao me virar, no entanto, dei de cara com Felipe, parecendo concentrado em mim.
- Eu a conheço de algum lugar? - perguntou ele, de repente, me fazendo rir e esquecer da confusão em que estávamos minutos atrás.
- Bom, foi você que fez minha entrevista de emprego, então acredito que sim. - respondi depois de ganhar um olhar assustado.
- Trabalha na minha empresa?!
Fechei a cara na hora, sentindo o pouco do bom humor que tinha restado ir embora ao vê-lo tão chocado com a notícia.
- Se me der licença chefinho, preciso ir para o trabalho antes que me descontem por chegar atrasada.
Ajeitei minha bolsa no ombro e lhe dei as costas, mas não devo ter dado mais que cinco passos antes de sentir, de novo, aquela mão em meu braço.
- Ei! Desculpe, eu não tinha prestado atenção. Devia ter reconhecido você. - ele falou rapidamente assim que o encarei.
Chocada com o pedido de desculpas apenas assenti, mas ele não parecia satisfeito.
- Que tal eu lhe pagar um café? Como um pedido de desculpas, seu chefe não vai se importar se chegar alguns minutos atrasada, prometo. - continuou o homem, me fazendo sorrir, embora estivesse ainda mais surpresa por vê-lo brincar.
- Não sei se notou, mas a cafeteria pegou fogo. - respondi, apontando para o lugar que finalmente começava a ter apenas os bombeiros e os funcionários na frente. Os curiosos já estavam indo embora.
- Tem uma outra bem no final da rua. Já sei que não é a sua preferida, mas acho que serve para um pedido de desculpas.
- Eu não sei…
- Por favor?!
Soltei um suspiro. Aqueles olhos me fariam dizer sim para o que ele quisesse. Infelizmente café era a única coisa que eu poderia ganhar daquele homem, então não faria mal aceitar.
- Está bem, mas fique sabendo que se meu chefe brigar comigo, vou colocar a culpa em você.
Seguimos juntos ao som da risada de Felipe. Quanto a reação do meu corpo aquele som, preferi ignorar. Um incêndio era suficiente para uma vida toda.





