A Mulher Que Ele Subestimou

Quando acordei, o quarto do hospital estava silencioso e escuro. A única luz vinha do corredor, uma faixa pálida debaixo da porta.

A minha mão foi instintivamente para a minha barriga. Estava vazia. Plana. O peso que carreguei durante nove meses tinha desaparecido. O meu filho, o nosso bebé, já não estava lá.

As lágrimas que eu pensava que viriam não vieram. Havia apenas um vazio gelado.

Peguei no telemóvel na mesa de cabeceira. A tela iluminou-se, mostrando 27 chamadas não atendidas para o meu marido, Miguel. Todas feitas por mim, na noite anterior.

Era altura de lhe ligar uma última vez.

O telefone chamou, uma, duas, três vezes. Finalmente, ele atendeu. A sua voz estava sonolenta e irritada.

"Clara? Que se passa? São seis da manhã. Estás a tentar acordar os mortos?"

"Miguel," a minha voz saiu como um sussurro rouco. "O bebé... perdemos o bebé."

Silêncio do outro lado. Não um silêncio de choque ou dor. Um silêncio de impaciência.

"O quê? O que é que isso quer dizer, 'perdemos o bebé'? Estás a ter outro pesadelo? A Sofia teve um ataque de pânico terrível ontem à noite, mal consegui acalmá-la. Não tenho cabeça para os teus dramas agora."

Sofia. A sua frágil e delicada meia-irmã.

"Eu liguei-te, Miguel. Vinte e sete vezes. Eu estava a sangrar. Pedi-te para vires."

"Eu vi as tuas chamadas," ele disse, a sua voz a endurecer. "Eu disse-te que estava ocupado. A Sofia precisava de mim. Ela pensava que ia morrer. Não podias simplesmente ter chamado uma ambulância como uma pessoa normal?"

"Eu chamei-te a ti primeiro. Tu és o meu marido."

"E a Sofia é a minha irmã! Ela não tem mais ninguém! Tu sabes como ela é sensível desde que o pai dela morreu. Achas que o mundo gira à tua volta?"

Um riso seco escapou dos meus lábios. Não tinha som de alegria.

"Então, um ataque de pânico é mais importante do que a tua mulher a perder o teu filho?"

"Para de ser tão dramática, Clara! Foi o que o médico disse? Que foi por minha causa? Provavelmente foi algo que comeste ou fizeste. Estás sempre a stressar por nada."

As suas palavras não me magoaram. Eram apenas... factos. Factos que confirmavam tudo o que eu já sabia.

"Miguel," eu disse, a minha voz subitamente clara e firme. "Quero o divórcio."

Ele bufou. "Divórcio? Estás a brincar? Vais deitar fora o nosso casamento por causa de uma noite má? Nós vamos tentar ter outro bebé. Vais ver, daqui a um ano, nem te vais lembrar disto."

"Não haverá outro bebé," eu disse calmamente. "Não haverá outro 'nós'."

"Não sejas ridícula. Estás apenas hormonal e chateada. Precisas de descansar. Falamos quando eu levar a Sofia a tomar o pequeno-almoço. Ela precisa de se distrair."

Ele estava prestes a desligar.

"Eu vi-te, Miguel," eu menti, uma ideia súbita a formar-se na minha mente. "A minha vizinha, a Dona Lurdes, levou-me ao hospital. Ela viu-te a entrar no prédio da Sofia. Disse que vocês os dois estavam a rir."

O silêncio do outro lado foi diferente desta vez. Pesado. Culpado.

"A tua vizinha é uma velha coscuvilheira. A Sofia estava a ter um ataque, eu estava a tentar animá-la."

"Não importa," eu disse, sentindo-me estranhamente leve. "Já não importa. Adeus, Miguel."

Desliguei o telefone antes que ele pudesse responder.

Bloqueei o número dele. Depois, o da Sofia. E o da minha sogra, por precaução.

Olhei para a minha barriga lisa. O bebé que me prendia a ele tinha desaparecido. A cola tinha-se dissolvido. Não havia mais nada a que me agarrar.

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