A Mentira Por Trás do Berço

Dois dias depois, recebi alta do hospital.

A viagem para casa foi silenciosa. Leo conduzia, os seus nós dos dedos brancos no volante. Eu olhava pela janela, as ruas a passarem desfocadas.

A nossa casa parecia estranha, fria.

Assim que entrámos, o Sr. Matias saiu da sala de estar. O seu rosto era uma máscara de preocupação solene.

"Inês, bem-vinda a casa. Como te sentes?"

"Estou bem," menti.

Sofia correu para o pai, abraçando-lhe as pernas. "Papá!"

Leo pegou nela, o seu rosto finalmente a suavizar-se com um sorriso genuíno. Foi o primeiro sorriso que vi nele em dias.

"Olá, minha princesa. Portaste-te bem com o avô?"

"Sim!" ela disse alegremente. Depois, ela olhou para mim por cima do ombro do Leo. Os seus olhos eram grandes e curiosos.

"Inês, a tua barriga desapareceu," disse ela.

Senti um aperto no peito.

Antes que eu pudesse responder, o Sr. Matias interveio. "Sofia, querida, a Inês está muito cansada. Porque não vais para o teu quarto e brincas um pouco?"

Ele guiou-a para longe, lançando-me um olhar de aviso.

Leo colocou a Sofia no chão e ela correu para o quarto. Ele virou-se para mim.

"Vou preparar-te um chá."

Ele foi para a cozinha. Segui-o, precisando de quebrar o silêncio sufocante.

"Leo, precisamos de falar sobre o que aconteceu."

Ele parou de encher a chaleira, de costas para mim. "Não há nada para falar. Foi um acidente. Acabou."

"Não acabou para mim!" A minha voz subiu. "Perdemos o nosso filho, Leo! O nosso filho!"

Ele virou-se lentamente, os seus olhos frios. "E o que queres que eu faça? Queres que eu chore e grite? Isso vai trazê-lo de volta?"

Fiquei chocada com a sua crueldade. "Quero que sintas alguma coisa! Estamos nisto juntos."

"Eu sinto," disse ele, a sua voz baixa e perigosa. "Sinto raiva por teres sido tão descuidada."

"Descuidada?" repeti, incrédula. "Um condutor bêbado atingiu-nos!"

"Talvez se não estivesses sempre a insistir para irmos a mais um check-up, a mais um exame, nada disto teria acontecido!"

As suas palavras eram como bofetadas.

"Eu só queria ter a certeza de que ele estava bem," sussurrei, as lágrimas a arderem-me nos olhos.

"Bem, não estava, pois não?" ele retorquiu.

Naquele momento, o Sr. Matias voltou a entrar na cozinha.

"Leo, acalma-te. A Inês acabou de sair do hospital. Ela não precisa deste stress."

Leo passou por mim, esbarrando no meu ombro. "Preciso de apanhar ar."

A porta da frente bateu com força.

Fiquei ali, a tremer, enquanto o Sr. Matias me observava com uma expressão que não consegui decifrar. Não era simpatia. Era... avaliação.

"Inês," disse ele calmamente, "o Leo está apenas a sofrer à sua maneira. Ele amava muito aquele bebé. Ele queria um filho mais do que tudo."

As suas palavras pareciam ensaiadas.

"Ele está a culpar-me," disse eu, a voz embargada.

O Sr. Matias suspirou. "Ele não está a culpar-te. Ele está apenas magoado. Todos nós estamos. Mas agora, a nossa prioridade tem de ser a Sofia. Ela já perdeu uma mãe. Não pode passar por mais traumas."

Ele estava a dizer-me, de uma forma não tão subtil, para engolir a minha dor. Para pôr as necessidades da Sofia acima das minhas.

Para fingir que o meu próprio filho nunca existiu.

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