A Mentira no Coração do Hospital

A expressão de Pedro mudou de frieza para irritação.

"Divórcio? Estás a falar a sério? Acabaste de perder um filho, não estás a pensar com clareza."

"Estou a pensar com mais clareza do que nunca," respondi, limpando as lágrimas com as costas da mão. "Eu não posso continuar casada com um homem que deixou o nosso filho morrer para salvar o filho de outra mulher."

"Eu já te disse, foi uma decisão profissional!" ele elevou a voz. "A vida do bebé da Eva estava em risco iminente! O nosso filho... a condição dele já era má desde o início."

"Isso não é verdade!" gritei, a dor a transformar-se em fúria. "A minha gravidez foi perfeita! Todos os exames estavam normais! Foste tu que me convenceste a vir para este hospital, o hospital onde tu e a Eva trabalham!"

Ele ficou em silêncio, a sua mandíbula a contrair-se. Ele não podia negar isso.

"Estás a culpar-me?" ele finalmente disse, a sua voz baixa e ameaçadora. "Depois de tudo o que fiz por ti?"

"O que fizeste por mim?" ri sem humor. "Casaste comigo porque a tua família te pressionou, porque eu era a 'escolha sensata'. Mas o teu coração sempre esteve com ela. E agora, provaste-o."

A porta do quarto abriu-se de repente. A minha sogra, Helena, entrou com um sorriso radiante, segurando um cesto de fruta. O sorriso dela congelou quando viu a tensão no ar.

"O que se passa aqui? Inês, querida, devias estar a descansar."

"Pergunte ao seu filho," eu disse, virando a cabeça para a janela. Não conseguia olhar para eles.

"Pedro, o que fizeste?" Helena perguntou, o seu tom a mudar para um de preocupação.

"Ela quer o divórcio," Pedro cuspiu as palavras. "Porque eu salvei a vida do Lucas."

Helena olhou para mim, chocada. Depois, a sua expressão suavizou-se para uma de pena condescendente.

"Oh, Inês. Eu sei que estás a sofrer. Perder um bebé é terrível. Mas não podes culpar o Pedro. Ele é um herói. Ele salvou o meu neto."

O meu neto. Aquelas palavras ecoaram na minha cabeça.

"O vosso neto," corrigi, a minha voz gélida. "O meu filho está morto."

"Não fales assim," Helena repreendeu-me suavemente. "Foi a vontade de Deus. Talvez não estivesse destinado a ser. Mas agora, temos o Lucas. Ele vai trazer tanta alegria à nossa família."

Ela aproximou-se da cama, tentando pegar na minha mão. Eu afastei-a.

"Saia," eu disse.

"O quê?"

"Eu disse para saírem. Os dois. Deixem-me em paz."

"Inês, não sejas assim," Pedro tentou intervir.

"SAIAM!" gritei, com toda a força que me restava.

Eles olharam um para o outro e, finalmente, saíram do quarto, fechando a porta atrás de si.

Fiquei sozinha com o silêncio e a minha dor. Peguei no meu telemóvel. Ignorei as dezenas de mensagens de parabéns para a família do Pedro pelo nascimento do "neto".

Abri uma nova mensagem e comecei a escrever para o meu irmão, Tiago.

"Tiago, preciso de ti. Aconteceu uma coisa terrível."

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