A Maldição do Amor Roubado

A reação na sala foi imediata e palpável.

Os pais de Ricardo, Helena e Afonso, mal conseguiram esconder o alívio que inundou seus rostos.

A tensão em seus ombros desapareceu, e um pequeno sorriso presunçoso brincou nos lábios de Helena.

Eles se entreolharam, uma comunicação silenciosa de vitória passando entre eles.

A desgraça pública de seu filho amado havia sido evitada, e o preço era apenas a minha palavra, que para eles não valia nada.

O policial mais velho, um homem chamado Inspetor Moraes, me olhou com uma profunda preocupação.

Ele não parecia convencido.

"Senhorita Ana," ele disse suavemente, se aproximando um pouco mais. "Se você estiver sob pressão, se estiver com medo, podemos conversar em particular. Podemos garantir sua segurança."

Sua voz era genuína, um pequeno barco salva-vidas em um oceano de maldade.

Por um segundo, uma parte de mim quis agarrar aquela mão estendida, quis gritar a verdade e deixar que a justiça seguisse seu curso.

Mas a nova e fria Ana, a estrategista que nascia da dor, sabia que a justiça deles não seria suficiente.

Eu balancei a cabeça, forçando um sorriso fraco.

"Não precisa, inspetor. Agradeço sua preocupação, mas estou bem. Eu só... sinto muita falta da Sofia. Acho que minha cabeça não está no lugar."

Eu me diminuí, me pintei como uma garota frágil e confusa, exatamente o papel que eles esperavam de mim.

O Inspetor Moraes suspirou, derrotado. Ele sabia que não podia me forçar.

"Tudo bem. Se mudar de ideia, aqui está meu cartão."

Ele me entregou o pequeno retângulo de papel, e eu o peguei com a mão trêmula, evitando seus olhos.

Quando os policiais saíram, o ar na sala mudou.

A farsa da preocupação caiu, e a dinâmica de poder se restabeleceu.

Nos dias que se seguiram, os rumores se espalharam pela pequena e abafada sociedade da cidade como um incêndio.

Eu ouvia os sussurros quando passava.

"É ela, a amiga da Sofia."

"Dizem que ela tentou seduzir o Ricardo no dia do funeral. Que sem-vergonha."

"Pobre Ricardo, ter que lidar com uma louca dessas depois de perder a noiva."

A culpa foi jogada em mim com uma facilidade chocante. Eu era a aproveitadora, a desequilibrada. Ninguém questionou o herdeiro rico e bonito.

A sociedade me condenou, e eu aceitei o veredito em silêncio.

Era parte do plano. A humilhação era um veneno que eu beberia de bom grado, se isso me levasse ao meu objetivo.

Uma semana depois, eu pedi uma reunião com Helena e Afonso.

Eles me receberam em sua mansão opulenta, seus rostos uma mistura de cautela e desprezo.

Eu me sentei na beirada de um sofá caro, minhas mãos unidas no colo.

"Eu sei o que as pessoas estão dizendo sobre mim," comecei, minha voz baixa e submissa. "E eu entendo. Eu não quero causar mais problemas para sua família."

Helena ergueu uma sobrancelha. "E então?"

Foi então que eu joguei minha bomba.

"Eu quero me casar com o Ricardo."

O silêncio que se seguiu foi tão profundo que eu podia ouvir o tique-taque de um relógio de pêndulo no corredor.

Helena e Afonso me encararam como se eu tivesse acabado de anunciar que era de outro planeta.

Afonso se inclinou para frente. "O que você disse?"

"Eu amo o Ricardo," menti, a palavra "amor" soando como uma obscenidade na minha boca. "Eu sempre amei, em segredo. Sofia sabia. Eu quero cuidar dele, ajudá-lo a superar essa dor. E... casar com ele limparia a imagem de todos. Silenciaria os rumores."

Eu ofereci a eles a solução perfeita para o problema deles, embrulhada em uma declaração de amor absurda.

Vi a ganância e o cálculo nos olhos de Helena.

Uma nora que eles podiam controlar completamente. Uma nora que já havia provado que ficaria quieta. Uma nora que o público via como uma oportunista, o que tornava seu filho Ricardo a vítima da situação.

Era perfeito demais para eles recusarem.

Helena sorriu, um sorriso que não alcançou seus olhos mortos.

"Bem, Ana. Isso é... inesperado. Mas se é o que seu coração deseja, e se Ricardo concordar... quem somos nós para nos opormos ao amor?"

Ela disse a palavra "amor" com tanto sarcasmo que quase me fez rir.

Eles aceitaram. Claro que aceitaram.

Eles não viram a armadilha se fechando ao redor deles.

Naquela noite, sozinha no meu quarto, eu olhei para a foto de Sofia na minha mesinha de cabeceira.

"Espere por mim, Sofi," sussurrei para a imagem sorridente. "A vingança é um prato que se come frio. E o banquete deles está apenas começando."

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