A Infiltração Fatal

Acordei com uma luz branca e forte nos olhos. O cheiro era a desinfetante. Hospital.

A minha mãe, Helena, estava sentada numa cadeira ao lado da cama, com os olhos vermelhos e inchados. Quando me viu acordar, agarrou-me na mão.

"Minha filha. Graças a Deus."

A minha primeira reação foi levar a mão à barriga. Estava vazia. Lisa.

O pânico instalou-se.

"O bebé? Onde está o Martim?" olhei para a minha mãe, desesperada. "Ele está bem? Nasceu?"

A minha mãe não conseguiu responder. Apenas abanou a cabeça, as lágrimas a escorrerem-lhe pela cara.

Um médico entrou no quarto. Tinha um ar cansado e triste.

"Dona Sofia," começou ele, com uma voz suave. "Os bombeiros trouxeram-na em estado crítico. A senhora esteve submersa durante demasiado tempo, houve falta de oxigénio."

Ele fez uma pausa, a escolher as palavras.

"Tivemos de fazer uma cesariana de emergência para a salvar. Fizemos tudo o que podíamos pelo seu filho, mas..."

Ele não precisou de terminar a frase.

O mundo parou. O som do monitor cardíaco ao meu lado tornou-se um zumbido distante.

O meu filho. Morto.

Porque o pai dele estava a consolar a prima por causa de uma infiltração.

Fiquei a olhar para o teto, sem ver nada. Não chorei. Não gritei. Não havia nada dentro de mim. Apenas um vazio imenso e frio.

A minha mãe abraçou-se a mim, a chorar por nós as duas.

Eu só conseguia pensar na chamada. Na música ao fundo. No riso da Clara. Na frieza do Tiago.

"Tenho de ir, a Clara está a chamar-me."

Essa frase ecoava na minha cabeça, repetidamente.

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