A Herdeira da Ruína: Sua Ascensão Triunfante

O funeral do meu pai acabou.

A chuva miudinha de Lisboa molhava-me o casaco preto.

O meu noivo, o Léo, estava ao meu lado, a segurar um guarda-chuva sobre a cabeça da minha madrasta, a Sofia.

Eu não tinha guarda-chuva.

A água escorria-me pelo cabelo e pela cara, mas eu não sentia o frio.

O Léo nem sequer olhou para mim uma vez.

Ele estava demasiado ocupado a consolar a Sofia, que chorava nos seus braços.

"Sofia, por favor, não chores mais. O tio Miguel não ia querer ver-te assim."

A voz dele era suave e cheia de preocupação.

A Sofia fungou.

"Léo, eu sei. Mas eu não consigo evitar. Agora que o teu tio se foi, o que é que eu e a Camila vamos fazer?"

Camila é a filha dela, a minha meia-irmã.

Olhei para a fotografia do meu pai na lápide. Ele parecia estar a sorrir para mim.

Senti um aperto no peito.

O meu pai morreu num acidente de carro há três dias.

Eu estava a trabalhar no Porto quando recebi a notícia.

Conduzi toda a noite para voltar a Lisboa.

O Léo não me ligou uma única vez.

Quando cheguei, encontrei-o a cuidar da Sofia e da Camila.

Elas pareciam ser a sua família. Eu era a estranha.

Agora, no funeral, a cena repetia-se.

Ele segurava a Sofia, sussurrava-lhe palavras de conforto e limpava-lhe as lágrimas.

Eu fiquei ali, sozinha, encharcada pela chuva.

"Léo," chamei, a minha voz rouca.

Ele finalmente virou-se para mim, a sua expressão irritada.

"O que foi, Ana? Não vês que a Sofia não está bem?"

"Eu também não estou bem. O meu pai morreu."

"Eu sei disso! Achas que és a única a sofrer? A Sofia perdeu o marido! A Camila perdeu o pai! Podes parar de ser tão egoísta por um momento?"

As suas palavras foram duras.

Olhei para ele, para o homem com quem ia casar em dois meses.

Não o reconheci.

"Egoísta? O meu pai acabou de ser enterrado e tu estás a consolar a mulher dele em vez da filha dele. E eu é que sou a egoísta?"

A Sofia soluçou mais alto, agarrando-se ao braço do Léo.

"Léo, não discutam. É tudo culpa minha. Eu não devia estar a causar problemas."

O Léo olhou para mim com raiva.

"Vês o que fizeste? Deixa-nos em paz, Ana. Vai para casa. Precisas de te acalmar."

Ele virou-me as costas e voltou a focar-se na Sofia.

Fiquei a olhar para as costas dele, sentindo-me completamente vazia.

O meu pai tinha-se ido.

E o homem que eu amava tinha-se tornado um estranho.

A chuva ficou mais forte.

Dei meia volta e afastei-me do cemitério, sozinha.

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