A Gota D'Água: O Divórcio Que a Libertou

A resposta dele não demorou nem um minuto. O telemóvel começou a tocar.

Atendi.

"Estás maluca?", gritou ele, "Divórcio? Estás a falar a sério? Só porque eu não pude ir ao hospital?"

A sua voz estava cheia de indignação, como se eu fosse a culpada.

"A minha mãe quase morreu, Pedro. E tu estavas numa festa."

"Era o aniversário do meu sobrinho! A minha família precisava de mim! Não podes ser tão egoísta, Mariana!"

Egoísta. Eu era a egoísta.

"E eu? Eu não precisava de ti?", a minha voz tremeu.

"Já és crescida, consegues lidar com as coisas sozinha. Além disso, o médico disse que ela ia ficar bem, não disse? Estás a fazer uma tempestade num copo de água."

A sua falta de empatia era como uma parede de gelo.

"Não quero mais discutir. Vou tratar dos papéis."

"Mariana, não te atrevas!", a voz dele ficou mais baixa, ameaçadora, "Pensa bem no que estás a fazer. Vais deitar fora cinco anos de casamento por causa de um capricho?"

"Isto não é um capricho", disse eu, com uma calma que me surpreendeu a mim mesma, "Isto é o fim."

Desliguei o telefone e bloqueei o número dele.

Sentei-me novamente no banco, o meu corpo a tremer. A decisão estava tomada. Não havia volta a dar.

A porta do elevador abriu-se e a minha sogra, Helena, caminhou na minha direção. O seu rosto estava contorcido numa máscara de fúria. Sofia seguia-a, com um sorriso de satisfação.

"Tu!", gritou Helena, apontando um dedo para mim, "Como te atreves a pedir o divórcio ao meu filho?"

"Isso é um assunto entre mim e ele", respondi, levantando-me.

"Claro que é da minha conta! Tu estás a tentar destruir a nossa família!", ela cuspiu as palavras. "Sempre soube que não eras boa. Uma interesseira, que só queria o dinheiro do meu filho."

Ri-me, um som amargo. "Dinheiro? Pedro e eu construímos tudo o que temos juntos. Eu trabalhei tanto quanto ele."

"Não fales assim com a minha mãe!", interveio Sofia, "Tu és uma ingrata. O Pedro dá-te tudo, e é assim que tu agradeces? Ameaçando-o com o divórcio no dia do aniversário do meu filho? Estragaste a festa!"

A preocupação delas era com a festa. Não com a mulher que estava a lutar pela vida a poucos metros de distância.

"A vossa festa não me interessa. A minha mãe está aqui. E o meu marido, o vosso filho e irmão, não estava."

"Ele tinha uma obrigação familiar!", insistiu Helena.

"Eu sou a família dele!", gritei, a minha calma a desaparecer, "Eu sou a esposa dele!"

"Uma esposa que não sabe o seu lugar", disse Helena com desprezo, "Uma boa esposa apoia o marido, não cria problemas. O Pedro fez o que era certo. A família vem sempre em primeiro lugar."

E eu, aparentemente, não fazia parte dessa definição de família.

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