A Garota Comum Dele Encontrou Tudo

Ponto de Vista: Clara Santos

A porta do apartamento rangeu ao abrir tarde da noite. Eu já estava na cama, fingindo dormir, mas meus sentidos estavam aguçados. Bernardo entrou tropeçando, seus passos desiguais, seguido pelos passos mais suaves de Kênia Dantas. Ela murmurava desculpas enquanto ele tropeçava em um tapete.

Bernardo desabou no sofá com um gemido, uma queixa arrastada escapando de seus lábios. Kênia alisou seu cabelo, seus movimentos praticados, quase maternais. Ela olhou para cima e me viu, parada no corredor, iluminada pela luz fraca da sala.

"Ah, Clara. Sinto muito," Kênia sussurrou, sua voz melosa. "Ele bebeu um pouco demais. Tentei impedi-lo, mas você conhece o Bernardo." Ela deu um sorriso fraco, uma performance que eu já tinha visto inúmeras vezes.

Eu não senti nada. Nenhuma raiva, nenhuma preocupação. Apenas uma observação distante. "Tudo bem," eu disse, minha voz plana. "Ele é um adulto. Sabe se virar."

Fui em direção à cozinha, meus movimentos fluidos e deliberados. "Quer um copo d'água, Kênia? Ou talvez um chá?" perguntei, tratando-a como uma convidada qualquer, não como a mulher que acabara de trazer meu ex-namorado bêbado para casa. A distância entre nós era vasta, um oceano de indiferença.

Ela pareceu surpresa com minha calma. "Ah, não, obrigada, Clara. Eu já deveria ir."

"Não é incômodo," insisti, servindo-me um copo d'água. "Não estou chateada. E certamente não estou preocupada." Minhas palavras eram verdadeiras. As velhas mágoas, as velhas ansiedades, pareciam sussurros distantes agora.

Eu a observei pelo arco da cozinha, suas ações aparentemente inocentes. Ela era linda, sim. Elegante. Tudo o que a família de Bernardo queria. Eu entendia por que ele a preferia. Ela se encaixava. Ela personificava sem esforço a imagem que ele precisava, o status social que ele desejava. Meus esforços para ganhar aceitação tinham sido um exercício fútil de autoengano.

Na manhã seguinte, Bernardo acordou com um gemido, sua cabeça sem dúvida latejando. "Clara?" ele chamou, a voz rouca de sono e ressaca. "Clara, pode me trazer aquele chá de limão com gengibre? E talvez umas torradas?" Era sua rotina habitual de manhã seguinte, um comando que ele esperava que eu seguisse.

Eu estava no meu escritório improvisado, com o laptop aberto, profundamente absorta em um projeto de escrita. Nem me virei. "Estou ocupada, Bernardo," eu disse, minha voz desprovida de emoção. "A cozinha fica ali. Você sabe onde tudo está."

Ele saiu cambaleando, uma mão pressionada na testa, e me viu, trabalhando intensamente. Seus olhos se arregalaram um pouco, um lampejo de confusão cruzando seu rosto. "Ocupada? Clara, eu preciso daquele chá. Minha cabeça está explodindo." Ele soava como uma criança mimada.

"Então vá fazer você mesmo," respondi, sem levantar os olhos. "Tenho prazos." Recuei ainda mais para o meu trabalho, as palavras uma fronteira firme.

Ele ficou ali, atordoado. A simples tarefa de fazer chá, algo que eu fizera por ele centenas de vezes, agora parecia um desafio intransponível para ele. Ele se deu conta de que seu serviço de empregada pessoal não estava mais disponível. Uma profunda sensação de perda, uma dor oca, instalou-se em seu peito. Ele estava irritado. Por que eu estava sendo tão teimosa? Não era assim que nossos términos costumavam ser. Eu sempre voltava.

Ele se atrapalhou na cozinha, fazendo uma bagunça. Xingou baixinho. Culpou-me por seu desconforto, por não estar lá. O ressentimento ferveu dentro dele.

Mais tarde naquela tarde, enquanto eu embalava alguns livros, ele me confrontou. "Clara, isso é ridículo. Você precisa ir embora. Agora." Sua voz era afiada, cortante. "Este apartamento é meu. Você não tem o direito de estar aqui."

Uma dor física e aguda me atravessou, uma mão gelada apertando meu coração. Suas palavras, tão casualmente cruéis, despojaram qualquer último vestígio de nossa história compartilhada. Dez anos construindo um lar juntos, dele sussurrando "nosso lugar", reduzidos a nada. Ele estava falando sério. Esta nunca foi nossa casa. Sempre foi dele.

"Bernardo," eu disse, minha voz mal um sussurro, "posso ter só mais um dia? Para embalar minhas coisas?"

"Não," ele retrucou, o maxilar tenso. "Não há razão para você ficar aqui. Não estamos mais juntos. Suma daqui." Ele me olhou com olhos frios e desconhecidos. O homem que eu amei por uma década era um estranho.

"Tudo bem," eu disse, engolindo o nó na garganta. Ele estava certo. A insegurança habitacional para as mulheres, especialmente após relacionamentos de longo prazo, era uma realidade brutal. Mas eu não iria implorar.

Assim que ele saiu para o trabalho, comecei a empacotar. Dez anos. Tantas memórias, tantas coisas. Cada item era um fantasma de um sonho que eu um dia tive, um futuro que eu imaginei como sua esposa, nesta mesma casa. Este lugar, no qual eu havia derramado meu coração, agora parecia uma jaula da qual eu precisava escapar. O volume de minhas coisas me sobrecarregou. Talvez fosse hora de me livrar de algum peso, literalmente. Simplificar. Apenas deixar ir.

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