A Gaiola Dourada Partida

O telefone tocou, quebrando o silêncio da noite. Eu atendi.

"Clara?"

Era o meu marido, Pedro. A sua voz estava baixa e rouca, como se estivesse a conter alguma emoção forte.

"Sim, sou eu."

"Onde é que estás? Porque é que não estás em casa?"

Olhei para as paredes brancas do quarto de hotel. Cheirava a desinfetante e a solidão.

"Estou fora. Preciso de um tempo."

"Um tempo? O que é que isso quer dizer? O teu pai está doente, ele precisa de ti. Ele não para de perguntar por ti."

O meu pai. O homem que me vendeu.

"Diz-lhe que estou morta," respondi, com a voz vazia de qualquer sentimento.

"Clara! Que raio estás a dizer? Ele é teu pai! Ele está a morrer!"

A sua voz subiu, cheia de raiva e incredulidade.

"Ele deixou de ser meu pai no dia em que me forçou a casar contigo para salvar a empresa dele."

Houve um silêncio do outro lado. Um silêncio pesado, carregado.

"Volta para casa, Clara. Vamos conversar sobre isto."

"Não há nada para conversar, Pedro. Eu quero o divórcio."

Desliguei antes que ele pudesse responder.

Bloqueei o número dele. Depois o da minha madrasta, Sofia. E o do meu meio-irmão, Tiago.

Finalmente, respirei fundo.

O casamento foi um negócio. Eu era o preço. O meu pai, Artur, estava à beira da falência. Pedro, o herdeiro de uma família rica, ofereceu-se para o salvar. A condição era simples: eu.

Casei com ele. A empresa do meu pai foi salva. Ele, a sua nova mulher Sofia e o filho dela, Tiago, continuaram a sua vida de luxo.

Eu fiquei presa.

Durante dois anos, vivi numa gaiola dourada. Pedro era um marido ausente, sempre a viajar, sempre ocupado. Eu era apenas um troféu que ele exibia em jantares de negócios.

O meu "pai" ligava-me todas as semanas. Não para saber de mim, mas para me lembrar do meu dever.

"Sê uma boa esposa, Clara. A nossa família depende disso."

A família deles. Eu não fazia parte dela.

Mas agora, o meu pai estava a morrer de cancro. Os médicos deram-lhe meses. De repente, eu tornei-me a sua filha querida outra vez.

Ele queria que eu implorasse a Pedro que usasse as suas ligações para conseguir um tratamento experimental no estrangeiro. Um tratamento que custava uma fortuna.

Eu recusei.

E pela primeira vez na minha vida, fugi.

Peguei no meu passaporte, em algum dinheiro que tinha guardado e saí daquela casa sem olhar para trás.

Não tinha para onde ir, por isso vim para este hotel barato numa cidade onde ninguém me conhecia.

A minha liberdade era estranha. Assustadora. Mas era minha.

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