A Fénix de Cinzas: O Renascimento de Clara

Acordei com o cheiro a desinfetante e fumo.

As minhas pálpebras pesavam uma tonelada, mas forcei-as a abrir. Paredes brancas, um teto branco, o som de um monitor a apitar ao meu lado.

Um hospital.

A última coisa de que me lembro é do fumo a encher o nosso apartamento, do calor a queimar-me a pele e de gritar o nome do meu marido.

Tiago.

O pânico apoderou-se de mim. Onde está ele? Ele está bem? E o nosso bebé?

A minha mão foi instintivamente para a minha barriga. Estava diferente, menos redonda. O pânico aumentou.

Procurei o meu telemóvel na mesinha de cabeceira. As minhas mãos tremiam tanto que quase o deixei cair. Encontrei o nome "Tiago" e liguei.

A chamada demorou uma eternidade a ser atendida. Finalmente, a voz dele soou, irritada e distante.

"Clara? O que foi? Estou ocupado."

O alívio de ouvir a voz dele foi imediatamente substituído por um frio na espinha.

"Ocupado? Tiago, o que aconteceu? Onde estás? Eu estou no hospital."

"Eu sei. Eu levo-te aí. Tive de tratar de umas coisas primeiro."

Ao fundo, ouvi outra voz, uma voz feminina que eu conhecia demasiado bem. Sofia, a prima dele.

"Tiago, querido, o Miau não para de tremer. Podes segurá-lo um pouco?"

Miau era o gato persa da Sofia.

A voz da minha sogra, Sónia, também se ouviu, cheia de preocupação. "Oh, coitadinha da minha menina. Passaste por tanto. Ainda bem que o Tiago te tirou de lá primeiro. Aquele apartamento no quinto andar é uma armadilha."

O meu apartamento ficava no terceiro andar. O da Sofia ficava no quinto. O fogo começou no segundo.

O meu cérebro processou a informação lentamente.

Ele salvou-a a ela primeiro. Ele passou pelo meu andar, ouviu-me gritar, e subiu para o quinto para salvar a sua prima e o gato dela.

"Clara? Ainda estás aí?", perguntou o Tiago, impaciente. "Olha, a Sofia está em choque. A mãe está a cuidar dela. Eu vou aí quando puder."

Eu não consegui dizer nada.

A porta do quarto abriu-se e um médico entrou, com uma expressão séria. Ele olhou para mim, depois para o meu prontuário.

"Menina Clara, sou o Dr. Martins. Como se sente?"

Eu ignorei a pergunta. A única coisa que importava era uma.

"O meu bebé", sussurrei, a voz a falhar. "O meu bebé está bem?"

O médico hesitou. O seu silêncio foi a resposta mais alta que alguma vez ouvi.

"Lamento muito. A inalação de fumo e o stress agudo... o seu corpo sofreu um trauma imenso. Não conseguimos salvar a gravidez."

O telemóvel escorregou da minha mão e caiu no chão. O som do plástico a bater no linóleo ecoou no quarto silencioso.

Do outro lado da linha, que ainda estava ligada, ouvi o Tiago a dizer: "Clara? Que barulho foi esse? Não partas nada, o hospital vai cobrar-nos por isso."

Eu olhei para a minha barriga vazia. Para as paredes brancas. Para a janela que mostrava um céu cinzento.

Já não havia bebé. Já não havia "nós".

"Tiago", disse eu, com uma calma que me assustou a mim própria. "Vamos divorciar-nos."

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