A notícia chegou como um soco no estômago, o telefone tocando no meio da noite com uma voz que eu mal reconheci.
Era a avó de Pedro.
"Júlia, minha querida... aconteceu um acidente."
Meu mundo parou.
O telefone caiu da minha mão, o barulho ecoando no silêncio do meu apartamento. As palavras dela, "acidente de carro", "não resistiu", "sinto muito", formavam uma névoa densa na minha cabeça.
Pedro. Meu noivo. Morto.
Não podia ser verdade. Nós tínhamos acabado de escolher as flores para o nosso casamento na semana passada. Ele riu quando eu insisti em peônias, dizendo que eram extravagantes demais, mas depois me beijou e disse que teria qualquer flor que eu quisesse.
Corri para o hospital, com o coração batendo na garganta, uma esperança desesperada de que tudo fosse um engano horrível. Mas o que encontrei foi apenas a confirmação fria e burocrática da tragédia. Um corpo coberto, um rosto desfigurado, a avó dele chorando em um canto, e Lucas, o primo de Pedro, com um olhar de dor que refletia o meu.
Os dias que se seguiram foram um borrão de luto. Amigos e familiares entravam e saíam, trazendo comida que eu não tocava, oferecendo palavras de conforto que não me alcançavam.
"Você precisa ser forte, Júlia."
"Ele não gostaria de te ver assim."
"Aguenta firme."
Lucas era o mais presente. Ele se sentava em silêncio ao meu lado por horas, apenas para que eu não ficasse sozinha. Sua presença era uma rocha silenciosa em meio ao meu oceano de dor.
Uma noite, a dor se tornou insuportável. O apartamento, que antes era nosso ninho de amor, agora parecia um mausoléu cheio de fantasmas. Cada objeto, cada foto, cada canto gritava a ausência dele.
Fui até o banheiro, olhei para o meu reflexo pálido e peguei a lâmina que Pedro usava para se barbear. A ideia de me juntar a ele era a única coisa que parecia fazer sentido. A dor física seria um alívio para a agonia na minha alma.
Foi Lucas quem arrombou a porta. Ele me encontrou no chão, o pulso sangrando, a consciência se esvaindo. Ele me salvou, mas na época, eu o odiei por isso. Ele me forçou a continuar vivendo em um mundo sem Pedro.
Semanas se passaram. Eu voltei a dar aulas na universidade, movendo-me como um autômato. A vida continuava ao meu redor, mas a minha havia parado naquele telefonema.
Até o dia em que uma forte enxaqueca me forçou a sair mais cedo da universidade e ir a uma clínica para pegar uma receita. Era uma clínica chique, num bairro nobre que eu não costumava frequentar.
Enquanto esperava na recepção, um casal passou por mim, rindo. O homem tinha o braço em volta da cintura da mulher, e sussurrou algo no ouvido dela que a fez rir ainda mais alto.
Meu coração congelou.
Aquele riso. Aquela postura. Aquele jeito de inclinar a cabeça.
Era ele.
Era Pedro.
Ele estava diferente. O cabelo estava mais curto, o rosto parecia um pouco mais fino, mas não havia dúvida. Era o homem que eu amava, o homem por quem eu chorei, o homem que estava morto.
E ele estava com outra mulher. Uma mulher bonita, com um ar de sofisticação, que olhava para ele com adoração.
Fiquei paralisada, o ar faltando nos meus pulmões. Eles não me viram. Passaram direto e entraram em um consultório no final do corredor.
Minha mente girava. "Impossível", eu dizia a mim mesma. "Você está enlouquecendo. É o luto."
Mas a semente da dúvida havia sido plantada.
Voltei para a recepção, tremendo, e perguntei à recepcionista quem era o homem que acabara de entrar.
"Ah, o Sr. Alves? Ele veio acompanhar a esposa, Sra. Clara Alves, para um check-up."
Alves. Não era o sobrenome de Pedro. E Clara... o nome me soava familiar, mas eu não conseguia lembrar de onde.
Voltei para casa num estado de torpor. Minha dor se transformou em uma confusão gelada, uma suspeita terrível.
Passei a noite em claro, vasculhando as coisas de Pedro, procurando por algo, qualquer coisa. E então eu encontrei. Escondido no fundo de uma gaveta, um velho diário que ele mantinha na adolescência. Eu nunca o tinha lido, por respeito à sua privacidade.
Mas a privacidade tinha morrido com ele. Ou com o homem que eu achava que ele era.
Abri o diário. E lá estava ela. Clara. Páginas e páginas dedicadas a ela. A garota que ele amou a distância por anos, sua obsessão secreta, a vizinha que se mudou e que ele nunca esqueceu.
A peça final do quebra-cabeça se encaixou quando vi o nome da clínica novamente, em um panfleto amassado no bolso de um casaco velho: "Clínica de Cirurgia Estética e Reconstrutiva Dr. Monteiro".
A verdade me atingiu com a força de um trem.
Pedro não estava morto. Ele tinha forjado a própria morte. Ele tinha feito uma cirurgia plástica para alterar sutilmente sua aparência. E ele tinha feito tudo isso para ficar com outra mulher.
A mulher que ele sempre quis.
Todo o meu luto, toda a minha dor, toda a minha quase-morte... tudo tinha sido uma farsa. Uma mentira cruel e elaborada.
A tristeza em meu peito se transformou em uma raiva fria e cortante. O amor que eu sentia por ele se desfez em pó, substituído por um desprezo profundo.
Ele não estava morto. Mas para mim, ele morreria agora. E eu faria com que ele se arrependesse de ter me transformado em uma tola.





