A Estrela da Manhã Que Renasceu

Sofia acordou no hospital no dia seguinte à festa de noivado.

A cabeça latejava, o braço onde o pai a agarrara estava dorido e com nódoas negras.

Aparentemente, depois da cena do lenço, sentira-se mal e desmaiara.

Ninguém da sua família a acompanhara ao hospital.

Uma enfermeira simpática, de meia-idade, entrou no quarto.

"Ah, acordou, menina Sofia. Estávamos preocupados."

"O que aconteceu?" perguntou Sofia, a voz rouca.

"Teve uma quebra de tensão, desmaiou. Mas os exames não revelaram nada de grave. Um pouco de repouso e fica como nova."

A enfermeira sorriu. "A sua família ligou há pouco. A sua irmã, a noiva, disseram que não podiam vir, muito ocupadas com os preparativos finais do casamento. Mas mandaram recomendações e disseram que pagariam a conta."

A ironia da situação não passou despercebida a Sofia.

Pagar a conta, como se isso compensasse a ausência, o desprezo.

Indiferença e mágoa preencheram o vazio no seu peito.

"Obrigada," disse Sofia, a voz neutra.

A enfermeira pareceu surpreendida com a sua frieza, com a ausência de lágrimas ou queixas.

Esta Sofia era diferente da rapariga assustada e submissa que dera entrada na noite anterior.

O desapego dela era palpável.

Mais tarde, ouviu duas auxiliares a cochichar no corredor.

"Coitadinha da rapariga, a família nem quer saber dela."

"Ouvi dizer que a irmã é a preferida, vai casar com um ricaço. Esta aqui só dá problemas."

A confirmação da injustiça que sofrera, vinda de estranhos, já não a feria como antes.

Era apenas um facto.

Aceitara a realidade cruel da sua vida.

Os pais viam-na como um fardo, um erro, exceto quando precisavam dela para Beatriz.

Beatriz via-a como uma rival a ser esmagada.

Diogo via-a como uma mentirosa invejosa.

"Eles têm a vida deles," pensou Sofia, enquanto olhava pela janela do hospital para o céu cinzento do Porto. "Eu terei a minha."

A solidão era uma companheira antiga, mas agora trazia consigo uma nova força interior.

Quando teve alta, dois dias depois, foi ela própria quem tratou da papelada e chamou um táxi.

Ninguém da família apareceu. Ninguém ligou.

Ao chegar a casa, encontrou os pais e Beatriz na sala, a discutir animadamente os detalhes do casamento.

Flores, música, a lista de convidados.

Beatriz usava um vestido novo, caro, e exibia o anel de noivado de forma ostensiva.

Os pais olhavam para ela com orgulho e adoração.

Sofia passou por eles em silêncio, dirigindo-se ao seu quarto.

A dor silenciosa de ser invisível era uma velha conhecida.

A cena apenas confirmava o favoritismo gritante que sempre existira.

"Sofia, querida!" chamou Beatriz, a voz falsamente doce. "Ainda bem que chegaste. Estava preocupada contigo."

Sofia parou à entrada do seu quarto, sem se virar.

"Não precisas de te preocupar, Beatriz. Estou ótima."

"Ótima? Depois de estragares a minha festa de noivado com o teu desmaio?" A voz de Beatriz tornou-se sibilante.

Diogo, que chegara nesse momento e ouvira a última parte, interveio.

"Beatriz tem razão, Sofia. Tens uma maneira incrível de chamar a atenção, sempre a fazer-te de vítima."

As palavras dele, cortantes, ainda tinham o poder de a magoar, mas a ferida já não era tão profunda.

Era como tocar numa cicatriz antiga.

Sofia lembrou-se de uma tarde, muitos anos antes.

Tinha sete anos, Beatriz nove.

Beatriz empurrara-a das escadas porque Sofia pegara numa boneca que Beatriz já não usava.

Sofia partira um braço.

Quando os pais chegaram, Beatriz chorava, dizendo que Sofia a tinha atacado e caído sozinha.

Os pais acreditaram em Beatriz, como sempre.

Sofia ficou de castigo, com o braço engessado, acusada de ser má e mentirosa.

O padrão de abuso e injustiça começara cedo.

Essa memória, e tantas outras, solidificaram a sua resolução.

"Não quero estragar mais nada," disse Sofia, virando-se lentamente para encará-los. Havia uma calma assustadora nos seus olhos. "Por isso, vou aceitar a vossa sugestão do retiro."

Beatriz sorriu, triunfante.

"Ótimo. Assim não causas mais problemas no dia do meu casamento."

"Não te preocupes, Beatriz," respondeu Sofia, a voz fria como gelo. "Depois do teu casamento, nunca mais me verão. Nunca mais causarei problemas a ninguém desta família."

A sua nova filosofia de vida era simples: paz e desapego.

Ela ia cortar todos os laços.

Beatriz aproximou-se dela, o olhar provocador.

"Ainda sonhas com o Diogo, não é, irmãzinha? Achas que ele alguma vez olharia para ti, uma simples dadora de órgãos, uma sombra?"

A irritação faiscou nos olhos de Sofia, mas ela controlou-se.

O desprezo de Beatriz era veneno puro.

"O Diogo é todo teu, Beatriz. Aproveita bem."

A resposta calma e desapegada de Sofia pareceu desarmar Beatriz por um momento.

Esperava lágrimas, raiva, mas encontrou apenas indiferença.

"Claro que é todo meu," Beatriz recuperou a arrogância. "Ele ama-me. Ele escolheu-me. Tu és apenas uma nota de rodapé esquecida na nossa história de amor."

Sofia limitou-se a encolher os ombros.

"Se é isso que te faz feliz acreditar, Beatriz."

Virou costas e entrou no seu quarto, fechando a porta suavemente.

Lá dentro, começou a fazer as malas. Não para um convento, mas para uma nova vida.

Uma vida onde ela seria a protagonista, não uma figurante sofredora.

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