A Dor da Despedida e a Força do Recomeço

A minha mãe, Clara, levantou-se de repente da cadeira, o rosto pálido de raiva.

"João, o que é que acabaste de dizer? Repete se tiveres coragem!"

A sua voz tremia, não de medo, mas de pura fúria. Ela sempre fora uma mulher calma, mas quando se tratava de me defender, transformava-se.

"A minha filha acabou de perder o vosso neto! Ela ligou ao marido a pedir ajuda e ele ignorou-a para ir socorrer a ex-namorada! E tu chamas a isso um 'assunto trivial'? Que tipo de família sois vós?"

Do outro lado da linha, ouvi a voz da minha sogra, Beatriz, a tentar acalmar a situação. "Clara, acalma-te, o João não quis dizer isso. Ele só está preocupado com o Pedro e a Eva."

"Preocupado?", a minha mãe riu, um som sem alegria. "Se estivessem preocupados, estariam aqui neste hospital, ao lado da minha filha, em vez de estarem a cuidar de uma estranha. Não me voltem a ligar."

Ela desligou o telefone com força e atirou-o para a cama. Depois, virou-se para mim, os seus olhos cheios de lágrimas que ela se recusava a derramar.

"Eva, minha filha, vamos para casa. A nossa casa. Tu não precisas disto. Não precisas deles."

As suas palavras foram o gatilho. As lágrimas que eu tinha segurado com tanta força finalmente começaram a cair, silenciosas e quentes, a rolar pelo meu rosto.

Não era apenas pela perda do meu bebé, mas pela traição profunda, pelo abandono no momento em que mais precisei.

No dia seguinte, a minha mãe ajudou-me a fazer as malas do hospital. Eu movia-me devagar, o meu corpo ainda dorido, o meu coração um buraco vazio.

Quando chegámos ao apartamento que eu partilhava com o Pedro, a porta estava destrancada.

Lá dentro, encontrei Pedro sentado no sofá, com uma expressão sombria. Ao seu lado, estavam os seus pais, João e Beatriz. Ninguém se levantou quando entrei.

"Eva, finalmente decidiste aparecer", disse João, a sua voz carregada de desaprovação. "Precisamos de ter uma conversa séria sobre esta tua atitude infantil."

Ignorei-o e caminhei em direção ao nosso quarto. A minha mãe seguiu-me, pronta para me ajudar.

"Onde pensas que vais?", gritou Pedro, levantando-se. "Não me podes ignorar assim! Eu sou o teu marido!"

Parei à porta do quarto e virei-me para o encarar. Pela primeira vez, olhei para ele sem o filtro do amor. Vi apenas um homem egoísta e fraco.

"Vou fazer as minhas malas, Pedro. Eu disse que queria o divórcio, e eu não estava a brincar."

Beatriz, a minha sogra, levou as mãos à boca, chocada. "Divórcio? Eva, não podes fazer isto. Pensa na vossa família, no que as pessoas vão dizer."

"Eu pensei na nossa família", respondi, a minha voz surpreendentemente firme. "Pensei nela quando estava a ser esmagada pela multidão. Pensei nela quando te liguei 18 vezes. Pensei nela quando estava sozinha na mesa de cirurgia. Onde estavas tu, Pedro?"

Ele desviou o olhar, incapaz de me encarar. "Eu já te disse, eu estava a ajudar a Sofia! Ela estava em pânico, o tornozelo dela..."

"O tornozelo dela era mais importante que a vida do nosso filho?", interrompi, a minha voz a subir uma oitava.

O silêncio na sala era pesado.

Finalmente, João falou, com uma frieza cortante. "Foi um acidente, Eva. Acidentes acontecem. Não podes culpar o Pedro por uma tragédia. Ele fez o que qualquer pessoa decente faria: ajudou alguém em necessidade."

"Qualquer pessoa decente teria ajudado a sua esposa grávida primeiro", retorquiu a minha mãe, entrando na sala. "Mas vocês não são pessoas decentes."

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