A Companheira Indesejada Dele é uma Loba Branca Secreta

Ponto de Vista: Luísa

Os olhos de Larissa, arregalados com uma mistura de dor e incredulidade, fixaram-se em mim como se me vissem pela primeira vez.

"Caio Rocha?", ela gritou, sua voz abafada pelo sangue que tentava estancar. "O Curandeiro Chefe da Alcateia Aurora Nascente? Você não o conhece!"

Com um salto, ela tentou arrancar o amuleto do pescoço de Michele. Movi-me mais rápido, minha mão interceptando a dela com um aperto que a fez ganir. Ela tropeçou para trás, embalando o pulso machucado.

"Uma Ômega patética como você não tem nem o direito de dizer o nome dele", ela cuspiu, o rosto uma máscara de fúria. "Minha mãe está a caminho. Você vai se ajoelhar e implorar misericórdia ao meu Alfa pelo que fez comigo."

Eu a ignorei. Meu olhar estava fixo no chão, nos pedaços de papel rasgados perto dos pés de Michele.

A carta de aceitação oficial do Conselho. O passe dela.

Uma onda de memórias me invadiu. Michele, estudando até o amanhecer, o rosto pálido de exaustão. Michele, praticando sua apresentação no espelho, a voz trêmula, mas firme. Ela havia trabalhado tanto, não apenas pelo estágio, mas para provar a todos — e a si mesma — que a filha de uma Ômega supostamente fraca poderia ser mais.

Larissa seguiu meu olhar. Um sorriso cruel torceu seus lábios. Ela pisou e moeu o passe rasgado no chão com o calcanhar, manchando deliberadamente o selo oficial com sujeira. O cheiro fraco e esperançoso da minha filha que se agarrava ao papel foi obliterado.

Sua única chance de se apresentar a tempo, perdida.

"Está vendo?", debochou Larissa. "Lixo pertence ao chão."

Um dos outros pais, um homem corpulento cujo filho fazia parte do grupinho de Larissa, decidiu intervir. Ele claramente queria ganhar o favor da futura Luna. Ele agarrou meu braço, seu aperto se intensificando, tentando usar sua força de Beta para me forçar a ajoelhar.

"De joelhos, Ômega", ele rosnou. "Antes que você faça a futura Luna do Alfa esperar."

Eu não lutei. Apenas virei a cabeça e encontrei seus olhos. Os meus estavam frios, desprovidos do calor que eu fingi por uma década.

"Marcos", eu disse, minha voz um sussurro suave que cortou o barulho. "Da Alcateia Rio de Pedra. O nome do seu Alfa é Gregório, não é? Seu território fica em uma planície de inundação. Os diques são mantidos por uma subvenção anual das Indústrias Harper. Uma subvenção que minha assinatura renova. Considere-a revogada."

O rosto do homem ficou pálido. Ele puxou a mão de volta como se tivesse sido queimado. O nome de sua alcateia, seu Alfa — era informação que uma Ômega não deveria ter. Ele me encarou, o medo surgindo em seus olhos.

Nesse momento, a porta da sala do conselho se abriu novamente.

Uma mulher pingando joias espalhafatosas e um vestido apertado demais entrou. Seu perfume, um floral barato e enjoativo, agrediu meus sentidos.

"O que está acontecendo aqui?", ela exigiu, seus olhos pousando em sua filha choramingando. "Larissa, meu bem! Quem fez isso com você? Quem intimidou a filha de um futuro Alfa?"

Esta era Íris Palmer.

"Foi ela, mamãe!", Larissa apontou um dedo trêmulo e manchado de sangue para mim.

O olhar de Íris se voltou para mim, seus olhos percorrendo minhas roupas simples e práticas com desdém.

Eu não disse uma palavra. Apenas dei um passo à frente e bati em Larissa novamente, na outra bochecha desta vez. O som foi nítido e final.

"Como ousa!", gritou Íris.

"Eu ouso", eu disse, minha voz ressoando com uma autoridade que ela nunca tinha ouvido. Alcancei o colarinho da minha camisa e puxei a corrente que sempre usava, aquela escondida sob o tecido. Nela, pendia um pequeno disco de prata primorosamente esculpido.

Eu o ergui. O antigo sigilo da Alcateia Lua de Prata, um lobo uivando para uma lua crescente, pareceu brilhar na luz fraca.

"Eu sou Luísa Harper, última herdeira da Alcateia Lua de Prata", declarei, minha voz ressoando com poder. "Meu companheiro é Vicente Harper, Alfa da Alcateia Mata Negra. E vocês feriram minha filha."

Por um momento, houve um silêncio atordoado.

Então Íris e Larissa caíram na gargalhada.

"Lua de Prata? Essa alcateia foi exterminada décadas atrás!", zombou Íris. "Você acha que uma bugiganga barata pode me enganar? Você vai pagar pelas despesas médicas da minha filha. Cinco milhões de reais!"

"Tudo bem", eu disse friamente. "E você vai pagar pelo vestido da minha filha. É uma peça personalizada de um estilista parisiense, tecida com runas de proteção. Custa mais que o seu carro. E ainda tem a questão do sofrimento emocional dela."

O rosto de Íris ficou roxo de raiva. "Sua vadia mentirosa! Vou te mostrar quem tem poder de verdade!"

Ela remexeu em sua bolsa de grife e jogou um cartão na mesa. Era um cartão de ouro negro, elegante, pesado e caro. Gravado em sua superfície estava o totem da cabeça de lobo rosnando da Alcateia Mata Negra.

Minha respiração falhou. Meu coração parecia ter sido espremido por um punho gelado.

Eu reconheci aquele cartão.

Era o Cartão da Companheira do Alfa, concedendo o mais alto nível de acesso e privilégio dentro da alcateia. Um cartão concedido a mim pelo Alto Conselho no mês passado por meus serviços. Um cartão que eu havia dado ao meu marido, Vicente, para guardar.

E nele, logo abaixo do totem da alcateia, estava o cheiro fraco e enjoativo do perfume barato de Íris, misturado com o cheiro familiar de pinho e terra de Vicente.

A peça final do quebra-cabeça se encaixou. O prego final foi martelado no caixão do meu casamento.

Ele não apenas me traiu. Ele havia dado meu status, minha honra, minha própria identidade como sua Luna, para esta mulher.

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