A Cicatriz do Meu Ventre Vazio

Quando abri os olhos, o cheiro de desinfetante invadiu as minhas narinas, o teto branco do hospital era a primeira coisa que via.

A minha cabeça latejava.

A última coisa de que me lembrava era do som ensurdecedor de metal a torcer-se e do meu carro a capotar várias vezes na estrada escorregadia.

Eu tinha ligado para o meu marido, Pedro, dezenas de vezes.

Nenhuma foi atendida.

Tentei mexer-me, mas uma dor aguda atravessou o meu corpo. Olhei para baixo, para a minha barriga.

Estava lisa.

O meu bebé, que devia nascer dentro de um mês, tinha desaparecido.

As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto, silenciosas e quentes.

O meu telemóvel estava na mesa de cabeceira. Com a mão a tremer, peguei nele. Havia uma mensagem de texto do Pedro, enviada há uma hora.

"Sofia está assustada por causa do acidente. O gato dela, o Miau, fugiu e ainda não o encontrámos. Estou com ela. Não me ligues, estou ocupado."

Sofia. A minha meia-irmã.

O meu mundo desabou naquele momento.

Eu estava num acidente de carro, a lutar pela minha vida e a do nosso filho, e ele estava a consolar a minha meia-irmã porque o gato dela fugiu.

Senti um nó na garganta.

Juntei todas as minhas forças e liguei-lhe. Desta vez, ele atendeu, a sua voz cheia de irritação.

"O que queres agora, Lúcia? Já não te disse que estou ocupado?"

"Pedro..." A minha voz saiu rouca, um sussurro fraco. "Eu sofri um acidente. O nosso bebé... desapareceu."

Houve um silêncio do outro lado da linha. Durou apenas alguns segundos, mas pareceu uma eternidade.

Depois, ouvi a voz chorosa de Sofia ao fundo. "Pedro, estou com tanto medo... E se o Miau nunca mais voltar? Ele é tudo o que eu tenho."

A voz do meu marido suavizou instantaneamente, cheia de uma ternura que eu não ouvia há anos.

"Não te preocupes, Sofia. Eu estou aqui. Vamos encontrar o Miau, prometo."

A raiva ferveu dentro de mim, superando a dor e o luto.

"Pedro, vamos divorciar-nos."

As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse pensar. Eram frias e definitivas.

"Estás louca?" ele gritou ao telefone. "Divórcio? Por causa disto? A Sofia precisa de mim! Tu estás bem no hospital, não estás? Para de ser tão egoísta!"

Egoísta? Eu perdi o nosso filho.

Ele desligou o telefone na minha cara.

Olhei para o teto, as lágrimas secaram. A dor no meu coração era uma ferida aberta e latejante.

Ele não perguntou pelo bebé. Ele não perguntou se eu estava bem.

A única coisa que lhe importava era a Sofia e o seu maldito gato.

O nosso casamento já estava morto há muito tempo. Eu apenas me recusava a admitir. O bebé era a minha última esperança, a cola que eu pensava que nos poderia unir novamente.

Agora, essa cola tinha desaparecido. E eu também.

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