Saí do hospital e apanhei um táxi. A chuva ainda não tinha parado.
As luzes da cidade passavam desfocadas pela janela.
Dei ao taxista a morada da casa da minha sogra. Era para lá que o Leo tinha ido.
Quando cheguei, a música estava tão alta que se ouvia da rua. As luzes brilhavam através das janelas, e eu conseguia ver as silhuetas das pessoas a dançar lá dentro.
Uma festa.
O meu corpo tremia, parte pelo frio, parte pela raiva.
Toquei à campainha. Ninguém ouviu.
Bati na porta com toda a minha força.
Finalmente, a porta abriu-se. Era a Sofia, a irmã do Leo.
Ela olhou para mim de cima a baixo, com uma expressão de nojo.
"O que é que estás aqui a fazer? Vieste estragar a diversão?"
"Onde está o Leo?" perguntei, a minha voz firme.
"Ele está ocupado," ela disse, tentando fechar-me a porta na cara.
Empurrei a porta com o meu ombro, a dor a atravessar-me o corpo, mas eu não me importei.
Entrei na casa.
O cheiro a álcool e a perfume encheu o ar.
E lá estava ele.
O Leo estava no meio da sala, a rir com um grupo de amigos. Ao seu lado, estava a Daniela, a segurar-lhe no braço, a sorrir para ele como se ele fosse o centro do universo dela.
A minha sogra, Clara, estava sentada num sofá, a observá-los com um sorriso de aprovação.
Nenhum deles me viu no início.
Atravessei a sala, as pessoas a afastarem-se para me dar passagem, as suas conversas a morrerem.
O silêncio espalhou-se pela sala até chegar ao Leo.
Ele virou-se. O sorriso desapareceu do seu rosto quando me viu.
"Ana? O que estás a fazer aqui? Eu não te disse para não vires?"
"O nosso filho está a morrer," eu disse, a minha voz a ecoar no silêncio. "E tu estás aqui a festejar."
A Clara levantou-se. "Não fales assim com o meu filho! Já te dissemos que não há dinheiro para aquele bebé doente. É um desperdício."
"Um desperdício?" repeti, a minha voz a subir. "Ele é o teu neto."
"Ele mal é uma pessoa," ela cuspiu. "Se ele morrer, podem sempre fazer outro. Um saudável, espero."
Senti o sangue a fugir-me do rosto.
Olhei para o Leo, à espera que ele dissesse alguma coisa. Que ele defendesse o nosso filho. Que ele me defendesse.
Ele apenas olhou para o chão, em silêncio.
A Daniela apertou o braço dele. "Leo, querido, não deixes que ela te chateie. Ela está apenas a ser histérica."
Foi aí que eu perdi o controlo.
"Fica longe dele," sibilei para a Daniela.
Depois, virei-me para o Leo.
"Eu vim aqui para te dar uma última oportunidade," eu disse, a minha voz a tremer de raiva. "Vens comigo para o hospital agora, ou acabamos tudo. Divorciámo-nos."
O Leo olhou para a mãe, depois para a Daniela, e depois para mim.
"Não sejas ridícula, Ana. Estás a exagerar."
"Eu quero o divórcio, Leo."
Ele riu. Uma risada fria e sem humor. "Divórcio? Tu não tens nada. A casa é da minha mãe. O carro está em meu nome. Vais para onde? Vais voltar para a tua família pobre?"
"Eu não me importo," eu disse. "Eu só não quero mais estar casada contigo."
Peguei no meu telemóvel e mostrei-lhe a fotografia que a enfermeira me tinha enviado. O nosso filho, minúsculo e frágil, coberto de tubos.
"Olha para ele, Leo. Olha para o teu filho. Esta é a tua última oportunidade de agires como um pai."
Ele nem sequer olhou para o telemóvel.
"Pára com o drama," ele disse, afastando a minha mão. "Vai para casa. Falamos amanhã."
"Não haverá amanhã para nós," eu disse.
Virei-me e saí. Ninguém me parou.
Ao fechar a porta atrás de mim, ouvi a música a recomeçar.
A festa continuava.





