A Chamada de 67 Minutos

O rosto do Tiago passou da confusão para a incredulidade.

"Divórcio? Ficaste maluca? O teu pai acabou de morrer, não estás a pensar com clareza."

"Pelo contrário," respondi, a minha voz cortante. "Nunca pensei com tanta clareza em toda a minha vida."

A minha mãe, que até então estava em silêncio, virou-se para o Tiago. Os seus olhos, embora vermelhos de chorar, estavam cheios de uma nova dureza.

"Ela disse que quer o divórcio, Tiago. E eu concordo."

O choque no rosto dele era quase cómico. Ele sempre contou com o apoio da minha mãe, sempre a viu como uma aliada dócil.

"Dona Helena, a senhora não pode estar a falar a sério. A Clara está de luto, está a dizer coisas sem pensar."

"O meu marido morreu porque tu estavas demasiado ocupado para atender o telemóvel," disse a minha mãe, a sua voz a tremer de raiva contida. "Não há nada que a Clara diga agora que seja mais irracional do que isso."

De repente, uma voz suave interrompeu a nossa conversa.

"Tiago? Clara? Está tudo bem?"

Era a Sofia. Aproximou-se de nós, o seu rosto uma máscara de preocupação. Estava vestida de preto, mas de alguma forma conseguia parecer delicada e frágil, não enlutada.

"Sofia, agora não," disse o Tiago, claramente desconfortável.

Ela ignorou-o e pôs a mão no meu braço.

"Clara, lamento muito a tua perda. O teu pai era um homem maravilhoso."

Recuei instintivamente.

"Tira a mão de mim."

A Sofia pareceu magoada. Os seus olhos encheram-se de lágrimas.

"Eu só estava a tentar ajudar..."

"Ajudar?" A minha voz subiu, atraindo os olhares das poucas pessoas que ainda restavam. "Tu ajudaste o suficiente. Graças à tua 'ajuda', o meu pai está morto."

"Isso não é justo!" disse a Sofia, a sua voz a ganhar um tom de indignação. "Eu não sabia! O Tiago disse que não era nada de grave!"

O Tiago interveio, tentando controlar a situação.

"Clara, para com isso. Estás a fazer uma cena. A Sofia não tem culpa de nada."

Olhei de um para o outro. A equipa perfeita. O herói e a donzela em apuros.

"Tens razão," eu disse, a minha voz a voltar a ser gelada. "A culpa não é dela. É tua. Só tua."

Virei-me e comecei a afastar-me com a minha mãe.

"Clara, espera!" gritou o Tiago. "Não podes simplesmente ir embora assim! Temos uma vida juntos!"

Parei e olhei para ele por cima do ombro.

"Nós não temos nada. Tu destruíste tudo na terça-feira à noite."

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