A Chama Que Consumiu o Amor

O cheiro a queimado foi a primeira coisa que me acordou.

Não era o cheiro de torradas queimadas, era um fumo denso e acre que me picava nos olhos e na garganta.

Sentei-me na cama, o coração a bater descontroladamente contra as minhas costelas. A minha barriga de oito meses, pesada e tensa, tornou o movimento lento e desajeitado.

O alarme de incêndio do prédio começou a soar, um grito agudo e intermitente que ecoava pelo nosso pequeno apartamento.

Pânico.

Agarrei no telemóvel na mesa de cabeceira e disquei o número do meu marido, Pedro.

A chamada foi para a caixa de correio.

Liguei outra vez. E outra.

Na quarta tentativa, ele atendeu. O som de fundo era de vento e carros, não de sirenes.

"Ana? O que foi? Estou ocupado."

A sua voz era cortante, impaciente.

"Pedro, o prédio está a arder! Há fumo por todo o lado!"

Gritei, a minha voz a falhar por causa da tosse.

Houve uma pausa. Eu conseguia ouvi-lo a falar com outra pessoa, a voz abafada.

"Onde estás? Estás bem?"

"Estou no quarto! A porta da frente está quente, não consigo sair! Pedro, por favor, vem para casa!"

"Calma, Ana, não entres em pânico", disse ele, mas o seu tom não era tranquilizador, era irritado. "Liga para os bombeiros."

"Eu já liguei, mas estou com medo! Onde estás?"

"A Sofia teve um problema com o carro na A5, o pneu rebentou. Estou aqui com ela, ela está assustada."

Sofia. A sua irmã mais nova.

"Ela está na autoestrada, Pedro. Eu estou presa num incêndio! Grávida!"

A minha voz subiu uma oitava, cheia de incredulidade.

"Eu sei, eu sei! Mas a Sofia está sozinha e em pânico. É perigoso aqui. Assim que o reboque chegar, eu vou a caminho. Tenta pôr toalhas molhadas debaixo da porta. Vais ficar bem."

Antes que eu pudesse responder, a chamada foi desligada.

Olhei para o telemóvel na minha mão, incrédula.

Ele desligou.

O meu marido escolheu a sua irmã, que tinha um pneu furado, em vez de mim, a sua mulher grávida presa num prédio em chamas.

O fumo estava a ficar mais espesso. A minha respiração tornou-se difícil, e uma dor aguda e súbita atravessou o meu abdómen.

Uma contração.

Forte e avassaladora.

Caí de joelhos, a agarrar a minha barriga. Outra contração, mais forte que a primeira. O bebé estava a chegar. Cedo demais.

O som de um estrondo na porta da frente fez-me saltar.

"Olá? Alguém aí dentro?"

Era a voz do meu vizinho, o Sr. Carlos.

"Estou aqui! Ajude-me!", gritei, a minha voz um sussurro rouco.

A porta foi arrombada e o Sr. Carlos, um homem de sessenta anos com o rosto coberto de fuligem, correu para dentro. Ele envolveu-me com um cobertor molhado e praticamente me arrastou para fora, para o corredor cheio de fumo e para a segurança das escadas.

Enquanto ele me ajudava a descer os degraus, o meu mundo começou a escurecer. A última coisa que senti foi outra contração violenta e o pensamento frio e claro: o meu casamento acabou.

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