A Casa Que Ele Perdeu, a Vida Que Eu Ganhei

Quando saí do hospital, o sol da tarde lançava longas sombras no chão. O meu corpo ainda doía por todo o lado, um lembrete constante do acidente de carro de ontem.

O meu telemóvel estava sem bateria, mas eu sabia, mesmo sem olhar, que estaria cheio de chamadas não atendidas do meu marido, Pedro.

A minha irmã mais nova, Laura, estava sentada ao meu lado no banco de trás do táxi, segurando a minha mão com força.

"Mana, tens a certeza de que não queres ficar comigo por uns dias? O pai e a mãe estão a viajar, a casa está vazia."

"Não te preocupes, estou bem," disse eu, forçando um sorriso. "Só quero ir para casa e descansar."

Mas a verdade é que eu não queria estar sozinha. Tinha medo de fechar os olhos e ver o camião a vir na nossa direção novamente.

E tinha medo de enfrentar o Pedro.

Ontem, no aniversário do nosso casamento, ele prometeu levar-me a jantar fora. Mas a sua ex-namorada, a Sofia, ligou a chorar, a dizer que tinha sido despejada e não tinha para onde ir.

E o Pedro, o meu bom marido, deixou-me à espera no restaurante durante três horas para ir ajudá-la.

Fui para casa sozinha, debaixo de uma chuva fraca. No caminho, um camião desgovernado bateu no meu carro.

Quando acordei no hospital, a primeira pessoa que vi foi a minha irmã, não o meu marido.

O Pedro só apareceu horas depois, com um cheiro a perfume de outra mulher e uma expressão de impaciência.

"Como estás? Os médicos disseram que não é nada grave. A Sofia estava muito assustada, tive de ficar com ela para a acalmar."

A sua voz era desprovida de qualquer preocupação.

Naquele momento, eu soube que o nosso casamento tinha acabado.

Chegámos a casa. Abri a porta e o cheiro familiar encheu os meus pulmões. Tudo parecia o mesmo, mas algo estava irremediavelmente quebrado.

"Vou tomar um banho," disse à Laura, tentando parecer normal.

A água quente escorria pelo meu corpo, mas não conseguia lavar a sensação de frio que se tinha instalado na minha alma. Olhei para o meu reflexo no espelho. Havia um grande hematoma na minha testa e arranhões nos meus braços.

Saí do banho e encontrei o Pedro sentado no sofá, a olhar para o telemóvel. Ele nem sequer levantou a cabeça quando entrei.

"Onde estiveste? Liguei-te o dia todo."

A sua voz era acusadora, como se eu tivesse feito algo de errado.

"O meu telemóvel ficou sem bateria," respondi calmamente. "Estive no hospital."

"No hospital? Porque não me avisaste? Sabes o quão preocupado eu fiquei?"

Preocupado? Ele não parecia preocupado. Parecia irritado.

"Eu tentei ligar-te ontem à noite, Pedro. Muitas vezes. Mas estavas ocupado a consolar a Sofia."

O meu tom era frio, e finalmente consegui a sua atenção. Ele levantou a cabeça, os seus olhos encontraram os meus.

"Ana, não comeces. A Sofia estava numa situação terrível. Ela não tem ninguém. Eu não podia simplesmente abandoná-la."

"E a mim? Podias abandonar-me a mim? No nosso aniversário?"

"Não sejas dramática. Foi só um jantar. Podemos comemorar noutro dia. Tu estás bem, não estás? O acidente não foi grave."

"Não foi grave?" A minha voz tremeu. "Eu podia ter morrido, Pedro."

Ele suspirou, um som de pura exaustão, como se eu fosse um fardo.

"Mas não morreste. Estás aqui, a discutir comigo por causa de um disparate. Tens de ser mais compreensiva. A vida da Sofia é muito difícil."

A vida da Sofia era difícil? E a minha? Casada com um homem que claramente ainda amava a sua ex?

Eu queria gritar, chorar, partir coisas. Mas em vez disso, respirei fundo e disse as palavras que estavam presas na minha garganta desde ontem.

"Pedro, quero o divórcio."

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