A babá do meu filho

Ponto de vista de Perséfone.

Contendo o choro, o meu filho continuou sentado em sua cadeira.

 O rostinho estava vermelho, os olhos marejados e com aquele soluço que me consternava.

A professora Léa ajeitou os óculos sobre o nariz e o observou. Suas roupas, discretas e impecáveis, pareciam gritar sua adequação ao universo opulento e frio de Apolo.

— Hoje faremos algo diferente, Ícaro — disse ela, pousando um livro ilustrado diante dele. — Você escolhe a história.

Ele olhou para a capa e, em seguida, para o fundo da sala, onde eu estava. Nossos olhos se encontraram por um instante. O meu filho buscava refúgio em mim, mas eu só podia observá-lo de longe.

— Eu estou aqui! — Balbuciei, esperando que a professora não me ouvisse.

— Quer esperar mais um pouco? — perguntou Léa, sentando-se ao lado dele.

Ele assentiu, calado.

“Meu menino. Sempre tão contido. Sempre se contendo pelo medo dos adultos.”

Poucos minutos depois, o som conhecido da bengala ecoou pelo corredor.

“Ah não, lá vem ele”, olhando para a porta, pensei. Aquele homem era a personificação de Hades e causava medo não só a mim, mas aos funcionários que trabalhavam naquela casa.

Apolo surgiu na porta. Erguido sobre a própria autoridade, com o rosto impenetrável, o corpo ainda mais rígido do que de costume.

— Professora Léa — chamou, com aquela voz que nunca se alterava, nem para o bem, nem para o mal.

Ela se levantou depressa. Os passos dela eram suaves, quase reverentes. Aproximou-se demais.

— Ele ainda está muito abalado — disse Léa, num tom doce. — E me perdoe se me excedi, monsieur Apolo, mas... por que esse apego tão intenso de Ícaro pela babá? Ele parece buscar nela algo que… — Ela parou.

“Diga. Diga o que pensa, vadia”.

Apolo ergueu uma sobrancelha como se estivesse escutando os meus pensamentos.

— As crianças se apegam a quem cuida delas — ele respondeu. — Perséfone cuida dele desde que nasceu.

É isso o que eu sou? Uma babá, não uma mãe.

— Ela o acolhe como se fosse a mãe do seu filho — insistiu Léa. — E o senhor parece permitir. O que é curioso vindo do senhor.

O canto da boca dele se ergueu.

“Ah, Léa… você não faz ideia do que provoca quando toca o orgulho dele.”

— O seu horário terminou, professora — disse Apolo, seco.

— Mas eu nem consegui dar a aula.

— Volte amanhã, no mesmo horário, madame Roux. — Praticamente ordenou e se virou, mancando.

Léa o acompanhou com os olhos semicerrados. Eu juro que vi fascínio.

“Você acha que entende, professora Léa, mas não conhece o abismo de onde ele veio.”

Quando ele desapareceu no corredor, ela sorriu. Virou-se para Ícaro, tentando recompor a doçura.

— Você está liberado, Ícaro. Amanhã, vou contar uma história sobre dragões…

Ícaro assentiu, com o queixo apoiado nas mãos.

— Vamos. — Estendi a mão para ele.

Ele levantou-se sem protestar. Quando chegamos à porta, senti um toque em meu ombro. Virei-me para Léa.

— Amanhã, a sua presença não será permitida durante a aula. — A professora enfatizou.

“Vadia!” Quis responder. As palavras queimavam na língua. Mas as câmeras estavam ali, penduradas como olhos que jamais piscavam.

Contida, eu dizia para mim mesma, “‘Não dê a ele motivo. Fica quieta.”

— Vamos, mamãe! — Ícaro me chamou, de longe.

Léa arqueou as sobrancelhas, surpresa.

“É isso aí, sou a mãe e não a babá do meu filho”

Saí da sala com as mãos cerradas e o coração latejando. O som dos passos de Ícaro era leve e saltitante. Fui atrás dele, guardando a raiva no fundo da garganta, junto de tudo o que me proíbo de sentir.

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Ao cair da tarde, eu quis ficar um pouco no jardim, já que a casa inteira parecia respirar ódio. Minhas mãos estavam entrelaçadas no colo, os olhos perdidos entre as flores lilases e o meu filho que brincava com o carrinho no meio das pedras. 

Anos atrás, Apolo se recuperou, mas com ajuda do pai, ele me impediu de ir embora com Ícaro. Numa manhã de verão em Atenas, o meu filho foi tirado de mim e levado por uma decisão judicial quando Apolo exigiu a guarda total de Ícaro. 

Era óbvio que ele usou a influência de Eros Velentzas para tomar a única coisa mais preciosa que eu já tive na vida. A mim, ele concedeu apenas um trabalho de ser a babá do meu filho e dormir na ala dos empregados. Não houve um dia que não amaldiçoasse Eros por ter mandado Apolo pra aquela casa na França.

E O rosto se contraiu por um instante, e uma lágrima escorreu. Sentia o gosto salgado da dor ao tocar o queixo. Após secar o meu rosto com as costas das mãos, tomei um gole do meu chá preto, que já estava completamente frio.

Foi então que ouvi o som ritmado dos passos e o toque seco da bengala. Nem precisava olhar pra saber que era Apolo.

— Está no seu horário de folga? — perguntou, a voz grave e rude.

Não me virei.

— Sim, senhor.

Ele caminhou até ficar ao meu lado, com o olhar voltado para o mesmo jardim onde o sol tocava o rosto dele de lado, acentuando o seu rosto com queixo proeminente mandíbula quadrada. 

— O que disse para a professora do Ícaro? — Ele perguntou, sem me encarar.

Virei o rosto só o suficiente para vê-lo de relance. A barba sombreava-lhe o maxilar. Os olhos profundos ainda estavam fixos no jardim onde o nosso filho brincava.

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