A Babá do Bilionário: O Preço da Semelhança

O olhar de Cian deixou o de Evelyne e se fixou na pequena cicatriz de queimadura que marcava o canto de seu punho esquerdo.

— Você é atrevida, senhorita Mendes. — Ele sibilou, num tom perigosamente baixo.

Inicialmente, a semelhança com sua falecida esposa Mariane tinha perturbado aquele homem; mas de repente, o passado de Evelyne passou a soar mais interessante.

— O que te trouxe a minha casa, hein!? — Ele deu um passo, diminuindo a distância, forçando-a a recuar.

“Preciso encontrar alguma desculpa ou ele vai descobrir”, desviando o olhar assim que percebeu que o patrão não tirava os olhos de sua cicatriz. A postura de Evelyne era altiva, mas ele percebeu a hesitação que antecedeu a resposta:

— Preciso desse trabalho para pagar as contas.

Dava pra notar que aquela mulher estava envolvida em algo bem mais complexo, e os corredores de sua mansão não era apenas um emprego, mas um refúgio.

— Uma mulher com uma aparência e determinação como a sua não se contentaria em esfregar pisos por salário mínimo. — O olhar de Cian a avaliou minuciosamente enquanto andava à sua volta.

Ele sorriu, mas o gesto não alcançou seu olhar escrutinador. De repente, Cian parou de frente para a governanta, que assistia à cena com o queixo trêmulo.

— Dona Lúcia, avise imediatamente ao chefe de segurança que a senhorita Mendes não tem autorização para deixar a propriedade.

— Eu não posso ficar presa nessa casa! — Evelyne falou em voz baixa para não acordar a garotinha. — Sai da minha frente! — Erguendo o queixo, ela exigiu.

— Claro! — Um sorriso cruel curvou o rosto de Verran. — Mas antes, vou chamar a polícia.

Cian nem sequer olhou para Evelyne, mas o efeito de sua jogada de mestre foi imediato. Por isso, ele encarou a governanta ao mandar:

— Dona Lúcia, liga para a polícia. Diz que a senhorita Mendes está retida aqui, sob suspeita.

A arrogância que cobria a face de Evelyne se desfez. O desafio em seus olhos foi substituído por um pavor breve e incontrolável. Maldito, arrogante... você não perde por esperar, ela praguejou internamente. A pequena cicatriz de queimadura em seu pulso esquerdo parecia palpitar sob a iluminação.

— Não precisa disso — ela disse, suavizando o tom e forçando um sorriso contido. — Quem é Mariane? Por que o senhor me olha assim? — perguntou, fazendo-se de sonsa.

— Claro que tem! — Enfatizou ele, mantendo os olhos na mulher jovem de cabelos pretos. — Não hospedo problemas na minha casa.

O homem endireitou os ombros e andou até a governanta antes de dar outra ordem:

— Dona Lúcia, leve a Srta. Mendes para o quarto anexo ao da minha filha. Garanta que ela tenha tudo de que precisa. E que ela entenda que este quarto será a sua breve moradia até que a polícia chegue a esta casa.

— Sim, senhor Verran! — Satisfeita ao ver a humilhação de Evelyne, a governanta concordou com um leve menear a cabeça.

Cian voltou seu olhar penetrante para Evelyne, que estava paralisada.

— Não ouse testar a minha paciência outra vez. — Deu o ultimato.

Evelyne titubeou. A necessidade de continuar naquele trabalho era crucial, mas o risco do seu passado ser exposto era maior.

— Estamos entendidos?

— Sim — respondeu Evelyne, fingindo-se submissa.

— Excelente! — Ele exclamou com um sorriso contido que logo se desfez. — Agora sai da minha frente. — Mandou entre os dentes apertados. — Você tem trabalho a fazer.

Evelyne saiu dali, seguindo a governanta, que mal conseguia esconder o desprezo. Ela havia aceitado a proposta, mas não por obediência, e sim por desespero. E o bilionário frio estava ansioso para tentar descobrir quem era aquela jovem que parecia tanto com a falecida Mariane.

A caminhada até o quarto anexo foi uma procissão silenciosa de humilhação. Evelyne seguia a governanta pelos corredores. A coluna de Evelyne estava ereta, mas sua mente trabalhava em ritmo frenético. Nojenta. Aproveita o seu momento, porque quando eu assumir o controle, você é a primeira a ir para a rua, pensou, lançando um olhar de soslaio para a nuca da mulher.

Para a governanta, Evelyne não era apenas a babá contratada, mas uma substituta barata da memória da finada Sra. Verran. O quarto anexo era grandioso. Não era uma suíte de empregada, mas um cômodo com cama king-size coberta por um edredom de seda. A janela dava para os vastos jardins, e tinha um banheiro de mármore branco apenas para Evelyne.

— Entra — ordenou a governanta, sem atravessar a porta. — Não se engane com o luxo, Srta. Mendes. Esta é apenas a cela mais agradável do Sr. Verran.

Evelyne entrou, ajeitando a alça da mochila gasta que contrastava com o tapete persa. Ela forçou um sorriso doce, quase angelical.

— Agradeço a consideração, Sra. Lúcia.

— Guarde sua gratidão — retrucou a governanta. Ela ergueu uma caixa de papelão marrom e pôs sobre a cômoda de ébano. — Esses são os seus novos uniformes.

Evelyne fitou a caixa com vestidos pretos e detalhes brancos na gola.

— Você não é a mãe de Maya. Você não é sequer a amiga do Sr. Verran. Lembre-se de que ainda é uma subalterna.

A governanta deu um passo à frente e continuou discorrendo sobre as regras:

— Minhas ordens são as do Sr. Verran. E você vai acatar todas; caso desobedeça, a sua saída desta casa será pela porta do serviço e direto para os braços da polícia. Entendeu?

Evelyne sentiu a pontada da ameaça de Cian. Sorrindo, Evelyne... mostra os dentes para a hiena, incentivou-se internamente.

— Entendido, Dona Lúcia. Vou fazer tudo o que me pedirem.

— Que bom que compreendeu. — O sorriso da governanta foi de triunfo. — A chave da sua porta fica comigo. Você tem acesso livre ao quarto de Maya. Para o restante da casa, você usa os acessos de serviço. — Após falar isso, a governanta saiu, fechando a porta como se trancasse uma cela.

Evelyne esperou por cinco segundos antes de jogar a mochila no chão, ignorando a caixa de uniformes.

— Preciso descobrir o ponto fraco desse idiota arrogante — murmurou para si mesma, os olhos faiscando de ódio em vez de lágrimas.

Seus olhos não registraram a arte cara nas paredes; apenas procuraram pontos de fuga. Inesperadamente, a porta se abriu sem aviso e a fez girar. O senhor Verran parou no limiar da porta de ébano. A camisa social estava aberta no colarinho, revelando o peitoral. O cheiro de uísque misturava-se ao aroma de seu perfume.

Evelyne fez o que era esperado. Deu-lhe as costas abruptamente, fingindo interesse nos uniformes; mas a mão de Cian agarrou-a firmemente em sua cintura. Ele a puxou com força, esmagando suas costas contra a parede.

— Você é linda, meu amor — ele soprou, o hálito quente de álcool atingindo-a.

— Me solta! Eu não sou a sua... — Antes que pudesse terminar, seus lábios foram silenciados quando ele se inclinou, roubando um beijo.

A boca dele pressionou a sua com desespero. 

“Nojento! Seu louco!” Ela gritou em pensamento, enquanto forçava o corpo a não lutar, planejando como usaria aquele momento de fraqueza dele a seu favor mais tarde.

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